terça-feira, 28 de junho de 2011

Programa do XIX Governo Constitucional (excertos: cultura)

Programa do XIX Governo Constitucional (excertos)

Cultura
A cultura é um factor de coesão e de identidade nacional. Não a tomaremos como um conjunto de sectores organizados consoante os interesses e as prioridades dos seus agentes, mas como uma atitude perante a vida e as realidades nacionais. Ela constitui, hoje, um universo gerador de riqueza, de emprego e de qualidade de vida – e, em simultâneo, um instrumento para a afirmação de Portugal na comunidade internacional.

Objectivos estratégicos
- Reavaliar o papel do Estado na vida cultural, de modo a que até ao final de 2011 seja possível uma reorganização e simplificação das estruturas da Secretaria de Estado da Cultura do ponto do vista do interesse público;
- Valorizar o papel da cultura, da criação artística e da participação dos cidadãos enquanto factores de criação de riqueza, de qualificação frente às exigências contemporâneas e de melhoria da qualidade de vida dos portugueses;
(...)
- Libertar o potencial das indústrias criativas e apoiar a implementação do negócio digital e das soluções de licenciamento que permitam equilibrar a necessidade de acesso à cultura com o reforço dos direitos dos criadores;
- Apoiar, libertar e incentivar a criação artística, nas suas diversas áreas, tendo em conta que o Estado não é um produtor de cultura.

Nas artes e no apoio às artes
O Governo irá concluir, no prazo de seis meses, uma proposta de Lei do Cinema depois de escutar os vários sectores relacionados com a indústria cinematográfica, e tendo como objectivo a valorização e a melhor divulgação do cinema escrito, produzido e realizado em Portugal.

O Governo assume o objectivo de aprofundar a ligação do sector do cinema ao serviço público e privado de televisão. Ao mesmo tempo, o Governo reavaliará a execução e gestão do Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual.

A fim de criar uma exigência de comunicação com o público e uma preocupação com a distribuição e exibição das obras cinematográficas, o Governo, através do Instituto do Cinema e do Audiovisual, irá ter em conta os resultados de bilheteira e número de espectadores obtidos pelos filmes anteriores dos produtores e realizadores candidatos a apoios.

Uma parte dos investimentos do Instituto do Cinema e do Audiovisual deve ser reservada ao estímulo a novos talentos e a filmes que, pela sua particularidade artística e cultural, possam não encontrar no mercado as fontes necessárias de financiamento.
(...)
texto completo em PDF aqui

segunda-feira, 20 de junho de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

APELO DOS CINEASTAS SÍRIOS AOS CINEASTAS DE TODO O MUNDO


AOS CINEASTAS DE TODO O MUNDO.

Cidadãos sírios pacíficos são mortos todos os dias porque pedem direitos e liberdades básicas. É a mesma opressão e corrupção que manteve os Sírios prisioneiros e privados da sua liberdade, dos seus bens, e das suas vidas há dezenas de anos, que hoje assassina os seus corpos e os seus sonhos.

Nós, cineastas sírios abaixo assinados, acreditamos que uma reforma que não comece por pôr fim ao controle das forças de segurança sobre as vidas e os corpos das pessoas, e a acabar com uma era de aprisionamento político, não basta.

Apelamos a todos os cineastas no mundo que se empenhem para que pare este massacre, que o denunciem, e que declarem a sua solidariedade com o povo sírio e com os seus sonhos de justiça, igualdade e liberdade.

A APR convida todos a assinar

domingo, 10 de abril de 2011

Uma portaria cega asfixia a Cinemateca Portuguesa

A APR - Associação Portuguesa de Realizadores manifesta a sua grande apreensão e indignação sobre o modo silencioso como este governo está a apagar a Cinemateca Portuguesa.

Novas regras administrativas cegas de um governo cada vez menos preocupado com a cultura levaram a Cinemateca a cancelar um grande número de sessões e legendagens dos filmes em Março passado. A partir do mês de Abril a Cinemateca Portuguesa viu-se obrigada a reduzir as sessões diárias, a fechar uma das suas salas, a acabar com o seu precioso programa mensal desdobrável que nos levava a escolher em detalhe, ou apenas a sonhar com os filmes que desejávamos ver ao longo de cada mês, a esquecer a reflexão e as promessas lançadas no mês de Janeiro com os ciclos de projecções e conversas com que inaugurou o ano: “ O que é programar uma Cinemateca hoje?”.

Porque é que a Ministra da Cultura não diz publicamente nada sobre este assunto que nos entristece e revolta a todos?

Num país em que a indústria norte-americana invadiu as salas de cinema de uma forma tão hegemónica, a Cinemateca Portuguesa tornou-se uma ilha essencial para a vida de uma cultura cinematográfica e para a organização de um pensamento sobre o cinema, como se sabe, lugares raros neste país.

Gerações de cineastas e gerações de cinéfilos devem à Cinemateca a formação de um olhar e a descoberta dos filmes da sua vida.

Senhora Ministra da Cultura, é um crime assistir passivamente ao progressivo “fade out” da Cinemateca Portuguesa.

A.P.R. - Associação Portuguesa de Realizadores
em 10 de Abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Cinemateca obrigada a reduzir a sua programação a três sessões diárias


A Cinemateca viu-se obrigada a suspender temporariamente uma parte relevante das suas sessões mensais, reduzindo a actividade pública exibidora des mês a três sessões diárias na Sala Dr. Félix Ribeiro.(...)
Estas alterações decorreme do impacto das recentes medidas administrativas que afectam a actividade dos organismos dependentes da Administração Central do Estado. (Portaria aqui em pdf)

domingo, 20 de março de 2011

Medidas das Finanças obrigam a Cinemateca a cancelar sessões

As recentes medidas administrativas introduzidas no funcionamento dos organismos dependentes da Administração Central do Estado, nomeadamente as que decorrem da aplicação da Portaria 4-A/2011 (aqui em pdf), obrigam a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema a proceder a algumas alterações na sua actividade pública, que, no imediato, comprometem a programação anunciada para as duas salas, (...)
aviso da Cinemateca Portuguesa em 15 de Março de 2011



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

BERLINALE: Há dois anos, Portugal estava em destaque na Variety...

07 de Fevereiro de 2009: "A revista da especialidade "Variety", que publica uma edição diária durante o festival distribuída gratuitamente às centenas de profissionais da imprensa e da indústria em serviço, incluiu na edição de ontem um especial de 12 páginas sobre Portugal.
(...)
O destaque é um panorama da actual produção de cinema dita "comercial", mostrando que o cinema português está a procurar um outro rumo para lá dos filmes de autor que tornaram o país conhecido nos festivais internacionais, com depoimentos de José Pedro Ribeiro, director do ICA, e de produtores como Pandora da Cunha Telles e Alexandre Valente.
O papel do FICA, o fundo de investimento privado dirigido especialmente para o audiovisual comercial, é sublinhado pelo dossier, que aponta ainda a importância da internacionalização para o cinema nacional, face às limitações e à dimensão do mercado português.
A esse nível, a "Variety" refere a actual força da ficção televisiva portuguesa, citando o êxito da produção da TVI ("Morangos com Açúcar" e "Equador") e referindo as ambições da Prisa, o grupo proprietário da estação, de criar a partir daqui um núcleo ibérico de produção para televisão.
A edição refere ainda os filmes que estão a ser vendidos no Mercado Europeu do Filme, a decorrer paralelamente com o Festival, com destaque para "Amália" de Carlos Coelho da Silva, e lista os principais produtores activos actual em Portugal."

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

BERLINALE : CARTA DOS REALIZADORES HUNGÁROS

A cultura é um direito humano elementar. O cinema húngaro faz parte na sua totalidade da cultura europeia.

Os filmes húngaros falam do povo húngaro, da cultura húngara, de uma maneira única e original. Estas obras empregam uma linguagem artística particular para transmitir ao mundo o que é o nosso país, o que nós somos. Destruir isso é destruir a cultura.

Isso não pode ser justificado pelo "realismo económico", uma visão falseada da situação financeira, uma ideologia política ou um ponto de vista subjectivo.

O governo húngaro decidiu que em lugar da estrutura autónoma, democratica e independante que garantia o pluralismo dos filmes até à data, será uma única pessoa nomeada por ele que terá a partir de agora todo o poder de decisão.

A nosso ver esta decisão ameaça a diversidade do cinema húngaro. Nós, cineastas húngaros, decididos a manter-nos fiéis à nossa vocação e desejosos de poder continuar a trabalhar no melhor das nossas capacidades artísticas, pedimos a todos que apoiem o pluralismo do cinema húngaro.

Budapeste, 10 de Janeiro 2011

Assinado:
Ildikó Enyedi, Benedek Fliegauf, Szabolcs Hajdú, Miklós Jancsó, Ágnes Kocsis, Márta Mészáros, Kornél Mundruczó, György Pálfi, Béla Tarr.

Esta carta recebeu até agora o apoio dos seguintes artistas e profissionais:
Theo Angelopoulos (Grèce), Olivier Assayas (France), Bertrand Bonello (France), , Frédéric Boyer (France), Leon Cakoff (Brésil), Alfonso Cuaron (Mexique), Luc et Jean-Pierre Dardenne (Belgique), Arnaud Desplechin (France), Jacques Doillon (France), Marion Döring (Allemagne), Atom Egoyan (Canada), Amat Escalante (Mexique), Jean-Michel Frodon (France), John Gianvito (USA), Erika et Ulrich Gregor (Allemagne), Joana Hadjithomas et Khalil Joreige (Liban), Michael Haneke (Autriche), Alejandro Hartmann (Argentina), Shozo Ichiyama (Japon), Jim Jarmush (USA), Aki Kaurismaki (Finlande), Stella Kavadatou (Grèce), Vassilis Konstandopoulos (Grèce), Mia Hansen-Love (France), Wojciech Marczewski (Pologne), Cristian Mungiu (Roumanie), Celina Murga (Argentine), Olivier Père (Suisse), Timothy et Stephen Quay (Grande Bretagne), Carlos Reygadas (Mexique), Arturo Ripstein (Mexique), Daniel Rosenfeld (Argentine), Gus van Sant (USA), Uli M Schueppel (Allemagne), Ulrich Seidl (Autriche), Hanna Schygulla (France), Tilda Swinton (Grande Bretagne), Juan Villegas (Argentine), Peter Watkins (Grande Bretagne), Andrzej Wajda (Pologne).
ver Chronique de la Fin du Monde,
por Jean-Michel Frodon (em francês)

Hongrie, leçon d'Histoire,
por Émile Breton (em francês)

BERLINALE: CINEASTAS HÚNGAROS APELAM À RESISTÊNCIA

O governo de Viktor Orban, que já se distinguiu pelos seus ataques contra a liberdade de imprensa, quer substituir a organização pluralista de cinema por um único director, o produtor Andrew J. Vajna, americano de origem húngara. A sua carreira fala por ele: produziu os" Rambo" e os "Terminator". Seja qual fôr o julgamento que possamos ter sobre esses filmes, o objectivo primeiro do seu produtor era de fazer com eles o máximo dinheiro possível.(...)
"O governo húngaro decidiu que em lugar da estrutura autónoma, democratica e independante que garantia o pluralismo dos filmes até à data, será uma única pessoa nomeada por ele que terá a partir de agora todo o poder de decisão", diz o apelo dos cineastas.
E não nos espantemos que todos os realizadores o tenham assinado dos mais antigos aos mais novos. (...)


sábado, 5 de fevereiro de 2011

TOBIS PORTUGUESA À VENDA

O Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) anunciou ontem publicamente que aceita "propostas, em carta fechada e lacrada, para venda da participação do sector público no capital da Tobis Portuguesa". A licitação mínima pelos 96,31 por cento é de 6,9 milhões de euros.
As propostas serão recebidas na sede do ICA, em Lisboa, até 9 de Março, dia em que serão abertas em sessão pública. Segundo fonte do instituto, "está também a ser veiculada toda a informação junto dos profissionais do sector". Têm preferência accionistas e trabalhadores. José Pedro Ribeiro, presidente do ICA, disse ao CM que quer "concluir o processo o mais depressa possível".
in Correio da Manhã, 5 de Fevereiro de 2011

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

EM DEFESA DE JAFAR PANAHI e MOHAMED RASOULOV

Foi com a maior indignação e revolta que a APR soube da condenação do realizador Jafar Panahi, pela justiça iraniana, a seis anos de prisão, acrescida da proibição de realizar filmes, escrever argumentos, dar entrevistas ou sair do Irão durante 20 anos. Segundo anunciou a sua advogada Farideh Gheirat, Jafar Panahi foi condenado "por ter participado em manifestações e em propaganda contra o país". Mohamed Rasoulov jovem realizador que trabalhava com ele num filme, foi também condenado a seis anos de prisão pelas mesmas razões.
Jafar Panahi que foi assistente de realização de Abbas Kiarostami, realizou várias longas metragens, e recebeu prémios nos festivais de Cannes, Berlim, Veneza, Locarno, etc., tinha estado preso pelas razões acima invocadas já por duas vezes, uma em Julho de 2009 e outra em Março de 2010.
A Associação Portuguesa de Realizadores condena veementemente esta prática prepotente do governo iraniano que atinge fortemente os direitos do homem e faz um apelo a todos os realizadores e profissionais de cinema e a todos aqueles que defendem a liberdade de expressão e os direitos básicos do homem a manifestarem-se e a participarem em todas as iniciativas em defesa de Jafar Panahi e Mohamed Rasoulov e pelo combate dos iranianos pela liberdade de expressão e de criação.
A APR junta-se assim ao apelo de todas as organizações que já se manifestaram (Cinémathèque Française, SRF, SACD, Cinémathèque Suisse, Festival de Cannes, etc.) e que pugnam pela libertação imediata dos realizadores iranianos e ao apelo da FERA (Federação das associações europeias de realizadores) de que é membro.
E convida todos a assinar a petição: www.ipetitions.com/petition/solidarite-jafar-panahi/

sábado, 11 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cortes de 50% aos financiamentos dos projectos cinematográficos!

O ICA - Instituto do Cinema e do Audiovisual, organismo afecto ao Ministério da Cultura, baseado numa interpretação própria da sua Regulamentação interna, está a implementar cortes de 50% nos seus apoios atribuídos aos filmes de longa metragem, ampliando o espectro dos cortes estabelecido pelo Ministério da Cultura.

A Direcção do ICA decidiu dividir o apoio normalmente atribuível a uma longa metragem, para a produção de duas longas metragens no mais recente concurso de Programa de Apoio às Co-Produções com Países de Língua Portuguesa. Esta situação é efectuada através de uma interpretação abusiva dos Regulamentos internos desta instituição.

A APR não contesta o desejo do ICA de apoiar mais um projecto e sempre defendeu que têm de haver mais projectos apoiados para o desenvolvimento do cinema e sua redinamização. Mas se a direcção do ICA decide apoiar mais filmes tem que acrescentar o valor em acréscimo necessário, isso sim seria uma decisão política com sentido.

Esta posição da Direcção do ICA, pelo contrário, coloca em dificuldade a produção de duas longas metragens, afectando o trabalho criativo dos realizadores, comprometendo seriamente a qualidade dos filmes que pretende apoiar, ou mesmo inviabilizando a sua futura concretização.

Este procedimento do ICA não é inédito e tem sido sucessivamente contestado por realizadores e produtores. Embora com um rácio de valores diferentes, muitos realizadores têm sido confrontados com cortes cegos determinados pela direcção do ICA, sem ter em consideração as necessidades intrinsecas de cada filme, seja nos concursos de curtas metragens, de documentários, de curtas metragens de animação, ou mesmo de longas metragens como é agora o caso. Alguns realizadores foram obrigados a recusar o apoio atribuído em concurso por se encontrarem face a uma proposta de financiamento irrealista, facto que não demove de forma alguma a decisão da direcção do ICA e que acaba por permitir assim que sejam alterados os resultados finais decididos pelo júri.

A APR manifesta-se de uma forma veemente contra os "cortes encapotados" na actividade cinematográfica, que colocam em risco a criatividade dos seus realizadores, comprometendo a sustentabilidade de todos os profissionais que trabalham e vivem para o desenvolvimento do cinema em Portugal.

A Direcção da APR

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

PROGRAMAS DE APOIO FINANCEIRO - 2011

O ICA, Instituto do Cinema e do Audiovisual, divulga, em 26 de Novembro, os programas de apoio financeiro a decorrer em 2011. Não houve qualquer alteração em relação aos péssimos anos anteriores . Nota inedita: As informações constantes deste Anúncio poderão ser objecto de alteração em função da aprovação legais com implicações no orçamento do ICA
um "Clic" na imagem abre-a

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

FERA: OS REALIZADORES EUROPEUS PROTESTAM CONTRA A DIMINUIÇÂO DOS FINANCIAMENTOS DOS FILMES

OS REALIZADORES EUROPEUS PROTESTAM CONTRA A DIMINUIÇÂO DOS FINANCIAMENTOS DOS FILMES

A Fédération Européenne des Réalisateurs de l'Audiovisual / Federation of European Film Directors (FERA, fundada em 1980 em Veneza) acaba de concluir a assembleia geral do seu 30º aniversário nos estúdios legendários de Cinecittá em Roma. Os realizadores europeus celebraram as 3 décadas de existência a debater o projecto da FERA para um contrato europeu de realizador, o Programa Média da União Europeia, a remuneração dos filmes na Internet, o acesso dos filmes europeus às salas preparadas para o cinema digital, e mais importante ainda nos dias de hoje, a dramática diminuição do financiamento dos filmes na União Europeia: na Itália, Hungria, República Checa, Irlanda, Portugal e Reino Unido.
A FERA compreende a necessidade de fazer economias neste período difícil mas a diminuição de incitamento fiscal à produção, a paragem na criação de infraestruturas, e a supressão de financiamentos para a produção e a distribuição vão pôr em perigo a própria existência do cinema europeu. Achamos estranho que por um lado a Comissão europeia tente “desbloquear potenciais industrias de criação”, e que por outro, os governos europeus utilizem a crise financeira para as roubar. Alguns ministros sacam do revolver mal ouvem a palavra cultura.
A cultura e o acesso á cultura são direitos humanos de base. A cultura define os países e os povos melhor do que as fronteiras. Isso é também verdade com o cinema europeu.
Mas esse cinema com todas as suas diferenças é também uma actividade económica fundamental. Em todo o mundo os investimentos no cinema e na produção para a televisão ajudaram a construir industrias, a alimentar novos médias, a criar empregos e por isso a contribuir para a economia do país. Cinema e audiovisual são indústrias do futuro, é preciso apoiá-las no tempo.
Fazemos um apelo a todos os governos europeus para que preservem as estruturas de apoio e invistam nos filmes e na cultura cinematográfica. Uma vez destruidas, não serão reconstruidas facilmente.
Roma, 8 de Novembro de 2010
a FERA

A APR é membro da FERA
A F.E.R.A. representa actualmente cerca de 30 Associações de Realizadores que representam os cineastas nos 27 países da Europa.

domingo, 14 de novembro de 2010

A APR E O PROJECTO DE LEI DO CINEMA (I)

Texto de trabalho com propostas para a discussão da Lei de Cinema (1ªparte)

excertos texto completo em pdf

A Associação Portuguesa de Realizadores, após cuidada análise do documento que consubstancia o projeto de proposta de Lei do Cinema, com data de 30 de Setembro de 2010 e agora colocada à discussão pública, oferece-lhe dizer o seguinte:

1. Lamenta o seu carácter excessivamente vago e generalista já que quase todo o articulado remete para futuros decretos-lei e regulamentos cujo conteúdo se desconhece. (...)
2. Também por essa razão, mas não só, a APR realça com surpresa a ausência de qualquer preâmbulo que defina a importância estratégica da actividade cinematográfica e audiovisual na nossa cultura e na nossa economia.
Interessa à lei, para sua clarificação e seu equilíbrio, definir como entendem os proponentes dever ser a actividade cinematográfica e audiovisual uma indispensável manifestação artística e elemento maior da expressão criativa da identidade cultural de um país; assim como a sua contribuição para o desenvolvimento económico e a criação de emprego, bem como para o desenvolvimento da diversidade cultural.
3. Reconhecemos que este projecto de Lei faz um esforço real para alargar as fontes de financiamento de que o ICA disporá para as várias actividades que tutela. No entanto, resulta claro que essas receitas provêm, na quase totalidade, dos proventos operacionais das operadoras de televisão, em sinal aberto ou por cabo, sem que até hoje nenhum governo tenha tido a coragem de fazer cumprir – nos raros casos em que o fez - cadernos de encargos com obrigações concretas. (...)
Embora saúde as medidas já avançadas no documento, a APR teme seriamente que a sua implantação não tenha sequência real positiva se não houver empenhamento político para tal. E é nos pressupostos de uma Lei que tal empenhamento deve ficar registado sem subterfúgios.
4 . Concurso público. Caso esta legislação seja aprovada com o articulado agora proposto, perguntamo-nos se não foi equacionada a circunstância de o ICA estar a permitir-se abrigar uma estrutura que é um novo FICA – com os mesmos clientes e os mesmos interesses e fins –, quando já se constatou a falência de instrumentos assim delineados, conforme ouvimos, aliás, da boca da Senhora Ministra em reunião.
Por uma questão de eficácia e transparência os apoios do ICA à criação e à produção – de curtas e longas metragens, primeiras obras, documentários, curtas e longas metragens de animação etc, – assim como todos os outros programas de apoio financeiro - devem continuar a ser atribuídos através de concurso público e não por apoio directo ou automático. Trata-se de uma questão elementar de transparência e de disposição estrutural que permita a defesa dos interessados.
5. Discordamos que deva competir à Secção Especializada para o Cinema e Audiovisual do Conselho Nacional de Cultura a indigitação dos membros dos júris dos concursos que o ICA abre anualmente.
O Conselho Consultivo do ICAM / ICA, com mais de vinte membros, não produziu qualquer documento de interesse para o Cinema Português. Não acreditamos que dezassete elementos, que não se conhecem e têm certamente opiniões muito diversificadas sobre o cinema – que na maioria dos casos tiveram apenas encontros fortuitos com a arte cinematográfica – possam escolher um júri qualificado.
A enunciação da proposta de lei neste pormenor vem desobrigar definitivamente a direcção do ICA de qualquer responsabilidade no que a todos os concursos diz respeito, dando força de lei a uma prática que se tem vindo a instalar no Instituto, e que sempre contestámos, que consiste em não se comprometer com qualquer decisão que exija determinação e transparência. (...)

a APR - Associação Portuguesa de Realizadores
17 de Outubro de 2010



Petição em Defesa do Direito à Cultura

Reunião da Plataforma das Artes – 13 de Novembro 2010 – Teatro São Luiz

Ex.mo Senhor Primeiro Ministro
Ex.ma Senhora Ministra da Cultura
Ex.mos Senhores Deputados da 13ª Comissão Parlamentar

APOIO ÀS ARTES

Considerando que a Cultura é um sector estratégico e estruturante para o país; considerando que a relevância política do Ministério da Cultura no actual Governo é praticamente nula, reflectindo-se num constante desinvestimento que contraria as repetidas promessas públicas do Primeiro Ministro; considerando o papel nuclear das artes na sociedade; considerando que o apoio às artes atribuído pela DGArtes significa apenas 10% do Orçamento para a Cultura e, portanto, 0,03% do Orçamento de Estado (o equivalente a três milímetros numa linha de 10 metros); a Plataforma das Artes toma as seguintes posições:

1 - Não aceitamos o anunciado corte de 23% no montante destinado ao apoio às artes, através da Direcção Geral das Artes. Consideramos que estes cortes, aplicados em contratos em vigor relativos aos apoios quadrienais poderão ser ilegais. Consideramos, porém, que o Ministério da Cultura não realizou esforços suficientes para minimizar estes cortes, esmagadoramente superiores ao corte de 8,8% anunciado para o Orçamento do Ministério da Cultura. Exigimos uma política de diálogo e procura de soluções em conjunto com os agentes culturais. Exigimos que ouçam as nossas ideias.

2 – Não aceitamos um Orçamento de Estado que esvazia o Ministério da Cultura da sua função. Os cortes anunciados no Orçamento do Ministério da Cultura não têm um real impacto no combate ao défice e comprometem irreversivelmente o tecido cultural português.

3 - Não aceitamos a desresponsabilização da Senhora Ministra da Cultura, que imputa ao Ministério das Finanças a responsabilidade dos cortes anunciados. Um governante deve ser responsabilizado pessoalmente pelas medidas que anuncia e aplica.

4 - Não podemos aceitar medidas que são ineficazes na diminuição do défice, mas comprometem o já tão fragilizado tecido cultural português e o direito constitucionalmente consagrado à fruição e criação culturais. Cortar no apoio às artes é cortar nos direitos dos portugueses. Por outro lado, estes cortes terão consequências sociais dramáticas, nomeadamente despedimentos e incumprimentos contratuais, numa área onde os trabalhadores pagam os mesmos impostos que quaisquer portugueses, sem acesso a protecção social.

5 - Exigimos que o Ministério da Cultura cumpra a lei e funcione. Exigimos a abertura dos concursos de apoio a projectos anuais e bienais em todas as áreas, dentro dos prazos legais, abrangendo o mesmo número de estruturas contempladas em 2010. Exigimos igualmente a garantia de abertura de concursos de apoio a projectos pontuais em todas as áreas, nos dois semestres de 2011, reforçando a sua importância no plano da inovação e renovação do tecido artístico. Não podemos aceitar que a Senhora Ministra da Cultura tenha tentado imputar ao sector a responsabilidade pela aplicação dos cortes, numa tentativa de dividir os agentes culturais. Não aceitaremos uma política que se encaminha para a extinção da Direcção Geral das Artes e, em última análise, para a extinção do Ministério da Cultura.

6 – Exigimos a manutenção do sistema de concursos públicos como formato de apoio estatal às artes. Quaisquer alterações ou melhorias, devem sempre pugnar pela democracia, pluralidade, equidade e transparência na aplicação dos dinheiros públicos. Nesse sentido, a Plataforma das Artes compromete-se a, até Maio de 2011, produzir, tornar público e oferecer ao Ministério da Cultura um documento que reúna o máximo de propostas e sugestões para uma nova regulamentação do sistema de apoios às artes.
7 - Exigimos que o Ministério da Cultura produza e torne público, durante a próxima semana, um documento divulgando com clareza, qual a verdadeira execução orçamental de 2010. Quantos foram os milhões de euros não executados e porquê? Exigimos saber quais os critérios que presidem à aplicação de verbas do orçamento para 2011, designadamente a razão de ser de uma diminuição de 23% no apoio à artes e de um aumento de 29% do Fundo de Fomento Cultural. Queremos perceber se existe alguma estratégia de futuro ou políticas culturais claras que orientem a aplicação de dinheiros públicos no sector da Cultura. Duvidamos da vantagem financeira das extinções dos Teatros Nacionais S. João e D. Maria II e respectiva integração na OPART, bem como da extinção da DGLB. Queremos esclarecimentos nesta matéria.

8 - Não aceitamos o papel meramente reactivo a medidas governamentais. A Plataforma das Artes compromete-se com um papel activo de reflexão e acção directa em continuidade, que permita defender uma visão das artes como elemento estruturante da sociedade e motor da cidadania.

APOIO AO CINEMA

Considerando que se anuncia, mas ainda não se assume, um corte de 20% no Programa de apoios financeiros para 2011 do Instituto do Cinema e Audiovisual; considerando que esse corte se justifica em parte pela estimativa em baixa das receitas da publicidade nas Televisões (quebra de 10%) e a outra para pagar a factura da austeridade imposta pela cativação de 10% das receitas próprias do ICA relativas a 2010; considerando que a prometida lei do Cinema a entrar em vigor em 2011 é neste momento uma miragem, uma vez que o Ministério da Cultura, promotor desta Lei, calou-se com a reacção de protesto dos Contribuintes do sistema de Financiamento (operadores de tv, cabo telecoms, plataformas de distribuição de tv, etc); considerando que, com isto, se antevê um ano de 2011 catastrófico para o Cinema; considerando que não se vislumbra qualquer calendário para a aprovação da Lei e para discussão das propostas de redacção alternativa apresentadas pelas associações sectoriais; exigimos da Senhora Ministra da Cultura:

1. Que promova junto do Sr. Ministro das Finanças a descativação de 10% das receitas próprias do ICA de 2010, de forma a minimizar os efeitos profundamente negativos do corte de 20% ainda não assumido pela Sra. Ministra para o Programa de Apoios Financeiros do ICA.

2. Que retome a discussão da Lei do Cinema, a qual foi bem recebida pelo Sector, de forma a apresentá-la e aprová-la na Assembleia da República, para que entre em vigor no mais curto espaço de tempo.

A PLATAFORMA DAS ARTES é constituída por
APR – Associação Portuguesa de Realizadores
Plataforma das Artes Visuais
Plataforma do Cinema
Plataforma do Teatro
PLATEIA associação de profissionais das artes cénicas
REDE associação de estruturas para a dança contemporânea

a petição
assinar a petição

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Plataforma das Artes - Teatro S.Luiz - Sábado 13 de Novembro - 15h00

Todos os que acreditam que a criação artística é a actividade nuclear da afirmação cultural de um país e um direito inalienável dos seus cidadãos
Todos os que recusam políticas cegas e acreditam que também em crise tem de prevalecer o estado de direito
Todos os que acreditam neste país
A PLATAFORMA DAS ARTES convoca
criadores, trabalhadores e agentes das áreas artísticas e culturais, cidadãos
Todos ao TEATRO S. LUIZ, sábado, dia 13 de Novembro, às 15h!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PLATAFORMA DAS ARTES - Comunicado

A criação artística é um serviço público de valor inestimável.
A Constituição Portuguesa defende o direito consagrado à criação e fruição artísticas, direito que os autores, criadores e demais profissionais das artes desde sempre têm vindo a garantir aos cidadãos.
O investimento empenhado no bem imaterial constituído pela livre criação é essencial ao desenvolvimento de uma sociedade avançada, muito para além de uma limitada visão contabilística. Em última análise, a continuada deficiência de investimento nesta componente essencial da cultura é um gravíssimo atentado ao futuro do país.
É justamente nos momentos de grave crise que não se pode capitular à tentação do desinvestimento. Por isso é com a maior das apreensões que a Plataforma das Artes constata o que parece ser um definitivo abandono.

Há que clarificar que:
- o financiamento da produção cinematográfica e audiovisual provém de verbas autónomas, geradas a partir de receitas de publicidade que flutuam com o estado do mercado;
- o financiamento do Ministério da Cultura (MC) à criação no âmbito das artes performativas e visuais constitui apenas cerca de 50% do total do orçamento gerido pelos agentes no terreno; mas sem esse investimento do estado central, que representa, em números de 2010, apenas 0,03% do OE, todas as receitas complementares ao sector desaparecem, principalmente no actual quadro de retracção e de cortes orçamentais às autarquias e redução do poder de compra da população em geral;
- além do património imaterial insubstituível gerado pela criação artística, este sector devolve ao Estado, na forma de IVA, uma parte considerável das verbas públicas nele investidas;
- a criação artística significa mais de 12 mil postos de trabalho directos (com base em dados de 2006, divulgados em estudo encomendado pelo MC) e um incalculável número de postos de trabalho indirectos, cidadãos que sofrerão, como todos, os agravamentos de impostos e taxas sociais acrescidos da reconhecida e generalizada precariedade e intermitência das suas relações laborais.

2010 – ano caótico e desestruturante do tecido profissional artístico
Em 2010 foi pela primeira vez posto em causa, de forma retroactiva, o cumprimento de contratos assinados com o estado, tendo sido, no caso particular dos agentes financiados pelo ICA, pagas tranches de financiamento já afectadas de redução de 10%. Em Julho os apoios pontuais da DGArtes para o 1º semestre estavam ainda em fase de audiência prévia, não eram conhecidos os resultados dos apoios anuais 2010 e os concursos para apoios pontuais do 2º semestre não tinham ainda sido anunciados. Neste quadro, e na sequência da constituição da Plataforma das Artes enquanto interlocutor alargado junto da tutela, a Ministra da Cultura garantiu publicamente, a 12 de Julho, várias medidas para a sua correcção. Mas anunciou, com o 2º semestre já em curso, que não existiriam apoios pontuais.
Agora, findo o mês de Outubro, há apoios pontuais de 1º semestre e anuais da DGArtes que ainda não foram pagos, a discussão da Lei do Cinema tem sofrido atrasos que comprometem irremediavelmente a sua entrada em vigor em 2011.

As Artes e o MC em 2011
Na noite de 15 de Outubro o governo entregou a sua proposta de OE para 2011 na AR. E essa é a única informação formal de que dispomos sobre a acção que o governo pretende desenvolver no domínio da Cultura e das Artes.

Pela proposta de OE 2011 somos informados que não foi executado em 2010 cerca de 17% do orçamento do MC, um corte real de sensivelmente 40 milhões de euros dos previstos 236,3 milhões no OE respectivo, confirmando o desinvestimento que temos denunciado. O governo projecta para 2011 um aumento de 2,9% sobre o orçamento da Cultura executado em 2010; no entanto isto representa um corte à partida de cerca de 15% levando o orçamento do MC para 0,3% do OE. Se o governo pretende em 2011 realizar a mesma taxa de execução orçamental de 2010 o corte duplicará. Este é de facto o mais baixo orçamento para a cultura desde que existe MC. Cada vez mais longe a meta do 1% para a cultura dos programas eleitorais e do governo; longe está o reconhecimento do erro de não investir na cultura.

É anunciada uma redução de 10% no orçamento PIDDAC da DGArtes (passando a 19,8 milhões de euros), organismo que executa todos os anos integralmente estas verbas de investimento, sendo por isso um corte real. Simultaneamente ao anunciado corte, no texto do Relatório da proposta de OE, é mencionado o reforço do apoio por parte da DGArtes à internacionalização das artes e à rede de teatros e cine-teatros, sem explicar claramente de onde virão essas verbas. Se forem, no todo ou em parte, retiradas do PIDDAC já reduzido, implicam obrigatoriamente mais um corte nas verbas disponíveis para o programa de apoio às artes e por isso redução efectiva do número de estruturas e criadores, redução efectiva da produção artística nacional disponível para internacionalização e para circulação na rede de teatros nacionais.
Os 20% de aumento do orçamento do ICA anunciados, não são correctos. As contas desse aumento foram feitas com o valor da execução de 2010 com 20% das receitas próprias do ICA cativas, como estavam à data de apresentação da proposta de OE. Assim o crescimento para este ano é de facto de 0%, sendo mesmo de prever um decréscimo devido à recessão do mercado de publicidade e à diminuição absoluta da publicidade nas Televisões em substituição de outras formas de inserção (internet, por exemplo).
A única rubrica do orçamento do MC que parece de facto ser aumentada é a do Fundo de Fomento Cultural, uma rubrica com movimentação discricionária e pouco transparente.

O facto de o Ministério não ter até agora considerado necessário estabelecer diálogo com os representantes do sector antes da aprovação do OE, ou seja, antes de todas as decisões tomadas, retira necessariamente credibilidade a qualquer iniciativa apresentada no futuro. No actual contexto de crise, uma prática governativa responsável obrigaria ao estabelecimento de diálogo e procura de soluções comuns.

Este cenário de silêncio e incongruências leva a Plataforma das Artes a reivindicar um esclarecimento urgente, capaz de traduzir o OE 2011 em medidas concretas que identifiquem claramente a proposta do Governo em relação à Cultura.

- De que forma será reconhecida a importância estratégica do investimento nas estruturas e criadores independentes como agentes do desenvolvimento cultural do país e como parceiros do estado?

- De que forma serão preservados mecanismos de renovação do tecido cultural e o apoio directo à criação artística?

- De que forma será promovida a distribuição da oferta de produção artística pelo todo geográfico nacional?

- A verba inscrita no Relatório da proposta de OE 2011 como “Apoio às Artes” – 13,1 milhões de euros, valor amplamente noticiado e nunca formalmente negado ou corrigido – é um lapso? Qual o valor real?

- Qual será a verba a consignar ao apoio à internacionalização da produção artística nacional anunciada no mesmo Relatório? Qual a sua proveniência? E o novo programa para a Rede de Teatros e Cine-teatros? Vai ser implementado? Com que verbas?

- Haverá ganho para os cofres do estado a curto prazo (a crise obriga a resultados imediatos) da fusão dos Teatros Nacionais/OPART? Será possível, com um macro-organismo, manter carreiras e tabelas remuneratórias distintas e específicas de cada um dos organismos pré-existentes? No caso particular do Teatro Nacional de S. João não fica o MC e o país mais pobre no objectivo da descentralização de pólos de decisão e dinamização? Tudo isto foi ponderado?

- Tem o governo noção de que qualquer corte no financiamento público deste sector significará longos períodos sem emprego para trabalhadores que não têm sequer acesso a protecção social para essa eventualidade?

- Qual o impacto real destas ou outras medidas no âmbito da produção e difusão das artes e do Ministério da Cultura como um todo na redução da dívida pública? Foi ponderado esse impacto – obrigatoriamente da ordem das centésimas percentuais do OE face ao iníquo valor do orçamento do MC – e o resultado previsível de aniquilamento de todo um sector?

A Plataforma das Artes, pretendendo apenas reagir e agir após conhecer os reais projectos do governo para o sector, exige da tutela o esclarecimento formal necessário em tempo útil, reconhecendo-nos na prática como os parceiros que somos na concretização das políticas públicas do Ministério da Cultura.

Em nome de milhares de cidadãos profissionais das artes, em nome do direito constitucional à criação e à fruição artística, diversa, plural e distribuída pelo todo nacional, em nome da importância nuclear da arte na cultura e da cultura no desenvolvimento do país, a Plataforma das Artes manifesta a sua disponibilidade para audiência com o Ministério da Cultura antes da discussão na especialidade do OE 2011.

Este documento foi elaborado a partir de reunião realizada a 30 de Outubro de 2010, em que participaram profissionais independentes e de várias estruturas das diversas áreas de actividade artística e de vários pontos do país.

A Plataforma das Artes é composta pelas seguintes organizações:
APR - Associação Portuguesa de Realizadores
Plataforma das Artes Visuais
Plataforma do Cinema
Plataforma do Teatro
PLATEIA associação de profissionais das artes cénicas
REDE – associação de estruturas para a dança contemporânea

O Buraco Negro por Augusto M.Seabra - Artecapital

Texto completo: Artecapital 29.10.2010
A tempestade sem precedentes que assolou o sector cultural em Portugal em finais de Junho e primeira quinzena de Julho deve ficar devidamente registada e ser rememorada, pelo que em si representou e porque agora, já sem os grandes holofotes mediáticos, persistem efectivamente muitos dos problemas, e alguns dos mais gravosos, no respeitante ao incumprimento por parte do Estado de compromissos contratuais.
Vamos então aos factos.
O orçamento para o Ministério da Cultura para este ano previa uma verba de 236,5 milhões de euros, menos de 0,4% do OE – um valor portanto quase residual – um dos mais baixos dos últimos anos. Com a aplicação do PEC, Plano de Estabilidade e Crescimento, entretanto aprovado na Assembleia da República, e de acordo com o art.º 49 do decreto-lei de execução orçamental, entrou em vigor um corte de 10% nas despesas correntes e, mais grave, outro de 20% no PIDDAC, Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central. Esse corte foi genérico, e estamos todos conscientes da gravíssima situação financeira em que se encontra o país – embora, há que dizê-lo, essa situação, longe de se dever apenas à crise internacional, é consequência do descalabro orçamental dos governos Sócrates, havendo portanto responsáveis.
Já agora, e uma vez mais, recordo que o próprio José Sócrates, na sequela da derrota nas eleições europeias, citou como erro que o seu governo tinha cometido o de não investir suficientemente na Cultura, como o tinha feito na Ciência. A vacuidade e inconsequência desta declaração de compromisso estão à vista (...)
Augusto M.Seabra
in Artecapital

sábado, 30 de outubro de 2010

Orçamento de 2011 do Ministério da Cultura em baixo

João Aidos, da Direcção-Geral das Artes (DGA), confirmou esta quinta-feira, no Porto, que os valores inscritos na proposta de Orçamento do Estado para 2011 não correspondem aos que o Ministério da Cultura (MC) tem.
João Aidos criticou as "leituras precipitadas" que foram feitas ao Orçamento, garantindo que, ao contrário do que foi divulgado [!?], a dotação do MC não irá aumentar no próximo ano. De acordo com a a proposta apresentada, o orçamento do MC para 2011 sobe 2,9% em relação à estimativa de verba gasta em 2010, e totaliza 201,3 milhões. Esse aumento corresponde a 5,6 milhões de euros. No entanto, a verdade é que, o orçamento da Cultura para 2011 está efectivamente abaixo do que tinha sido orçamentado em 2009: 212,6 milhões, dos quais ficaram por gastar 3,1 milhões.
Diário de Notícias - Maria João Caetano, com Lusa

O mesmo se verifica com o orçamento do ICA para 2011: o Orçamento do Estado para 2011 fez as contas com o termo de comparação do orçamento do ICA para 2010 com a cativação de 20% das suas receitas próprias, ou seja, considera como referência que o Orçamento do ICA para 2010 era de 12,8 milhões de euros enquanto na realidade o montante no Orçamento para 2010 era de 16 milhões de euros.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ICA: 3.200.000 euros desaparecem em 2010?










A proposta de Orçamento do Estado 2011 (em cima) menciona uma estimativa (ano 2010) de 12.8 milhões de euros para o ICA enquanto, há um ano atràs, o Orçamento de 2010 (em baixo) tinha previsto um montante de 16 milhões de euros. Volatilizaram-se 3,2 milhões de euros.
Serão essas verbas desaparecidas correspondentes à cativação de 20% das receitas do ICA?
Não pode ser, se acreditarmos na palavra da Ministra da Cultura que, em Julho, anunciou a descativação de 10% dos 20% previstos no artigo 49º do Decreto-Lei 72-A/2010 (estes 10% representam uma cativação de 1.6 milhões de euros e não de 3,2 milhões).

ICA: O ORÇAMENTO DE 2011 BAIXOU DE 33% EM RELAÇÃO A 2001

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Proposta de Lei do Cinema

A Proposta de Lei do Cinema (pdf), a apresentar ao Governo, elaborada por CP-MC, Cinemateca Portuguesa – Museu de Cinema, ICA - Instituto do Cinema e do Audiovisual e IGAC – Inspecção-Geral das Actividades Culturais, a que pode aceder aqui , encontra-se aberta a consulta pública até ao próximo dia 12 de Outubro.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Carta da APR à Ministra da Cultura - 29.09.2010

Em 28 de dezembro de 2009, dirigimos a Vossa Excelência um texto em que expúnhamos aqueles que são no nosso juízo os temas centrais que deviam orientar qualquer reformulação legislativa do cinema português, considerando que a APR representa a maioria dos realizadores, conhecedores naturais da actividade que é a sua profissão e arte.
Mais tarde, na sequência da reunião realizada a 24 de Março, onde se constatou que a situação da actividade e dos profissionais do sector se tem vindo progressivamente a agravar, as reuniões entre realizadores associados intensificaram-se no sentido da formulação de propostas para elaboração da nova Lei do cinema. Não registámos, até este momento qualquer reacção do gabinete de Vossa Excelência a essas sugestões, apesar do clímax/anticlimax que foi o encontro entre V. Excelência e a Plataforma das Artes, entretanto constituída.
Soubemos agora, por notícias veiculadas por V. Excelência, que os trabalhos de preparação do texto de proposta de lei estão muito avançados e que têm sido ouvidas «várias entidades».
Não duvidamos que, no que toca à Associação Portuguesa de Realizadores, os nossos textos estarão a ser tidos em linha de conta. No entanto, teríamos gostado de ter participado mais activamente no projecto, até porque somos os principais interessados na sua boa e coerente arquitectura, sendo certo que contamos que o documento legisle também, com rigor e equilíbrio, no sector da distribuição e exibição que recolhe cerca de 80% de todas as receitas do cinema português.

Posto isto gostaríamos de avançar a V. Excelência algumas perguntas.
- Que método de consultas está a ser utilizado de momento neste processo de formulação da proposta de lei?
- Qual o calendário a que se propõe o Ministério da Cultura no que se refere ao processamento dos preceitos de discussão pública, prazo para essa discussão, sua entrega na Assembleia e votação do documento?
- Entende o grupo de trabalho, de que desconhecemos a constituição, entrar em contacto com as várias associações do sector, que englobam realizadores, produtores e vários técnicos por especialidade? Tem-no feito? E quando pensa fazê-lo com a APR?

Na expectativa da resposta de V. Excelência a estas questões,
Somos, respeitosamente,
A Direcção da APR

quarta-feira, 21 de julho de 2010

ICA : 25 projectos de 2009 ainda não contratualizados

Em 16 de Julho de 2010, ainda não foram contratualizados pelo ICA 25 apoios à produção ou à escrita referente aos concursos de 2009 : 11 curtas metragens, 7 filmes de animação, 2 apoios à escrita e 2 longas metragens.

Estado do Cinema de Animação

1. Introdução
Perante o grave impasse que vive o cinema português com a actual paralisia do FICA, e devido à caótica situação financeira no ICA (recusando assinaturas de contratos homologados pela Ministra, atrasando pagamentos, e renegociando projectos já aprovados), os agentes da área da criação cinematográfica vêm sentindo urgência em realizar uma análise sobre o estado em que se encontram os parâmetros da sua actividade.
Por ser um dos sectores mais atingidos pelo não cumprimento do anteriormente referido, cabe uma palavra aos criadores do cinema de animação.
E apesar das atenções estarem momentaneamente direccionadas para questões urgentes para o cinema em geral, convém não esquecer do que vem sofrendo o sector da animação em particular.
Deste modo, alguns realizadores de cinema de animação entendem que chegou o momento de tomarem posição e desenvolverem acções em defesa dos seus interesses enquanto profissionais de cinema e artistas.

2. Um espaço conquistado
Em primeiro lugar destaque-se que, apesar de ser ainda restrita a nossa produção no campo do cinema de animação, com este parco volume o sector tem vindo a ganhar uma importância significativa nacional e internacionalmente - facto que se comprova pelos importantes prémios que veio arrecadando ao longo da década passada, e que contribuíram para a visibilidade exterior do cinema e da cultura portuguesa.
Apesar desses resultados, a verdade é que tal circunstância não se reflectiu em nada quanto à legítima expectativa de melhores condições de criação e produção, através de maiores apoios.

Terá sido por causa da progressiva visibilidade do cinema de animação que em 2001 e durante a vigência do ministro Carrilho (no enquadramento regulamentar dos concursos de apoio à produção do ICAM), que se estabeleceu devidamente o apoio ao cinema de animação, destinando anualmente uma verba significativa para curtas-metragens, séries e longas-metragens.
Todavia, e a partir daí, este propósito foi sendo sempre limitado, não se procedendo a um aumento gradual do montante dos subsídios: actualmente o cinema de animação está reduzido a cinco ou seis curtas metragens, tendendo a extinguir-se definitivamente.

3. Uma descida progressiva dos apoios
Se procedermos a uma comparação, em 2001 o cinema de animação usufruía de apoio anual de 130.000 contos para longas-metragens (complementados por acordo a 20% pela RTP), de apoio anual a duas séries no valor de 40.000 contos cada (com aquela mesma percentagem de participação pela RTP em cada projecto) e com 80.000 contos para curtas-metragens até 26 minutos (com a mesma participação da RTP).
Verificamos que desta política de financiamento, e que dirigia 248.000 contos anuais para o sector (correspondendo a 1.240.000 euros na moeda corrente, entre ICAM e RTP), a cota foi gradualmente reduzida até aos actuais 500.000 euros anuais para curtas-metragens, tendo sido retiradas dos concursos as séries e longas-metragens, formatos invalidados ao serem adstritos aos apoios do FICA, sem qualquer consulta ao sector.

4. A suspensão do FICA
O FICA, cuja política de formação e filosofia de acção já está bem demonstrado ter sido um falhanço, se não um profundo logro para os parâmetros de desenvolvimento do cinema português, atribuiu inicialmente 16 milhões de euros para a animação (entre 10 a 15% do seu investimento).
No entanto, ao longo dos três anos de actividade apenas 80.000 euros foram adjudicados à animação, verba essa que não chegou a ser contratualizada, devido à recente paralisação do FICA.
Desde o seu inicio o FICA não utiliza critérios de avaliação que definam o que é um projecto de animação, e poucos autores, realizadores, produtores têm acesso aos instrumentos do que se transformou num embuste: O FICA não serve a animação nacional, e muito menos a encaminha para um desenvolvimento que nos permita ter uma pequena indústria.
Aliás a palavra animação é utilizada de forma perigosamente vaga nos regulamentos do FICA, abrangendo jogos interactivos, plataformas multimédia, conteúdos televisivos e por fim o próprio cinema de animação.
Deste modo, em vez de se adjudicarem financiamentos a projectos sustentados por equipas creditadas, dando azo ao florescimento de uma indústria de qualidade, sobretudo nacional, as candidaturas do FICA permitem qualquer tipo de “co-produção”, ou seja o aparecimento de empresas criadas com o único intuito de sacarem fundos e subcontratarem serviços na Ásia, ou na América Latina.

5- O ICA, única instituição de apoio ao cinema
É assim no ICA, e não no FICA que se concentram agora todas as atenções, com o receio do seu desaparecimento ou fusão numa outra entidade, de características ainda mais obtusas.
Se ao nível da animação, os fundos do ICA foram já anteriormente canalizados para produções supostamente industriais (longas e séries), e que se verificaram serem mal geridas (algumas delas feitas no estrangeiro e abandonando os técnicos portugueses e parte dos seus autores), existem muitas outras questões que não se restringem a dados puramente financeiros.
Basta verificar várias produções financiadas pelo ICA para constatarmos que foram tecnicamente realizadas sem qualquer tipo de meios, com objectivos artísticos longe dos indicados nos dossiers dos projectos aprovados, e muito abaixo do custo previsto tido como referente para a adjudicação da obra.
Actualmente qualquer projecto pode ser aprovado com uma técnica específica em animação, terminando com outra muito mais económica, quando não colmatada com extractos em imagem real, para compor o orçamento.
A par deste género de manobras, muitos projectos são propostos tendo como realizadores, ilustradores ou grafistas da nossa praça, com o fito de justificar curriculos e pontuações. Sem qualquer tipo de formação, estes ilustradores acabam por deixar nas mãos das produção a direcção das suas obras, limitando-se a seguir de longe o andamento do trabalho.

6- O futuro do ICA e a sua missão para com os autores
Com a agonia inequívoca do FICA, pelo menos nos tempos que correm, teme-se que os parcos financiamentos do ICA destinados à animação, venham não só a ficar por valores simbólicos (se tivermos em linha de conta os cortes agora anunciados pela Ministra), como tombarem sob o apetite dos fautores desse cinema «industrial» que não liga a meios para conseguir os seus fins: ganhar uma percentagem sobre os apoios, relegando para um plano secundário a experiência artística do nosso cinema de animação, que se deve a meia dúzia de autores e realizadores sobejamente premiados.

O ICA deve apoiar a criatividade e a atitude cultural cinematográfica, não preferencialmente a industrialização ou as estruturas existentes.
O que deve distinguir o apoio do ICA não deve ser o formato (curta-metragem, longa-metragem ou série) mas sim a característica autoral de cada projecto, nas suas vertentes artística e cultural, dando primazia aos projectos mais originais.
No que respeita ao cinema de animação, deve desenvolver uma produção regular assente em critérios de inovação, qualidade e diversidade de formatos, evitando a redução do apoio financeiro, como tem vindo a acontecer unilateralmente mesmo antes da actual crise financeira.

Acresce ainda que os procedimentos actuais do ICA, ao nível dos seus concursos, constituem um engano que deve ser discutido. Segundo o presente regulamento, cada projecto é submetido ao tradicional júri de selecção, de cujo trabalho resultam as obras a apoiar.
Todavia, agora cada produtor é levado a negociar com um técnico não necessariamente especializado que, a posteriori, renegocia os valores constantes do dossier de projecto.
Abordada individualmente, cada produtora fica perante o ICA numa relação de força desigual, fragilizada: concorre-se consoante um valor justificado no caderno de encargos, que é aprovado por decisão do júri, mas ou se leva o que o ICA propõe posteriormente, ou se desiste.
Eis um sistema absurdo que desenvolve um relacionamento pouco claro, facilitando faltas de seriedade e sugerindo indirectamente que produtores proponentes inflacionem os orçamentos com vista à posterior negociação.

7. Revitalizar o ensino
A expansão mediática do cinema de animação português, através de festivais e mostras, e sobretudo por via do trabalho da Agência de Curtas Metragens de Vila do Conde, deu grande visibilidade a este sector - de notar que no catálogo publicado por esta Agência em 2010, sete curtas de animação encontram-se à cabeça das obras distribuídas nacional e internacionalmente.
Por estes e outros factores cresceu nos últimos anos o ensino da animação, mas a verdade é que nas quatorze universidades e institutos politécnicos que leccionam a área, não há uma única licenciatura própria ao cinema de animação.
Deste modo e ao nível dos estabelecimentos superiores de ensino, o cinema de animação quase nunca é leccionado enquanto linguagem e forma expressiva, mas antes na maior parte dos casos como complemento ao multimédia ou ao audiovisual, enquanto forma de colmatar o campo do efeito especial, do jogo interactivo, do grafismo computadorizado, do écran de telemóvel, ou de animações para a internet.
Trata-se acima de tudo um ensino dirigido a um mercado global , pouco interessado no sector do cinema, ministrado em inúmeros casos por professores sem formação específica, simples habilidosos ou técnicos informáticos.
Não havendo formação de qualidade equacionada para as necessidades do desenvolvimento do cinema de animação, quem quer profissionalizar-se tem a opção de cursos pouco profundos, ou de arriscar uma formação cara além fronteiras. Assim, urge um debate amplo entre as estruturas interessadas no âmbito da profissão, para que o esforço de formação possa ser re-equilibrado, nomeadamente com plataformas de colaboração entre instituições portuguesas/internacionais, facultando assim o prosseguimento de estudos aos interessados no cinema de animação.

8. Os representantes do sector
A desorganização campeia entre nós, com uma associação de produtores pouco operante e mobilizadora, e que de forma deficitária, esgrima com a administração do ICA tópicos percentuais assentes na sua própria subsistência, suprimindo muitas outras questões colaterais, e que afectam todo o sector.
A par disso um espaço inerte, a Casa da Animação, apoiada pelo ICA com um subsídio anual, limita-se a parcas iniciativas, que em nada ou quase nada justificam a sua missão: um motor capaz de congregar esforços no campo da formação, da divulgação e da defesa do cinema de animação em todo o pais.
O conhecimento da animação portuguesa em termos institucionais, concentra-se em poucas pessoas, mais ávidas em se fazerem conhecer, do que em operar no sentido de uma evolução do sector. Fazem-no por necessidade própria e para não perderem a crista da onda.
Esta situação de esquecimento de todos os outros agentes no precário tecido da animação portuguesa, leva a que as condições de trabalho sejam péssimas, miseráveis mesmo, criando-se um clima propenso ao estágio não remunerado, ou ao pagamento assim “que venha a próxima parcela do ICA”.
Integridade, respeito, honestidade e profissionalismo são características que muitos consideram serem raras no espaço das produtoras de maior capacidade de gestão, fazendo falta uma renovação do tecido produtivo no nosso sector e uma alteração radical das atitudes de relacionamento entre empregadores e empregados, entre criadores e gestores dos dinheiros atribuídos a cada projecto.

9.Contratos e compromissos
Os contratos elaborados entre autores e produtores são actualmente documentos básicos, o mais das vezes redigidos para responder tão só a compromissos exigidos por instituições como o ICA ou a RTP quando das candidaturas aos concursos.
Os contratos definitivos surgem apenas após a aprovação do subsídio, confrontando os autores com novas e desvantajosas condições dos produtores (financeiras e outras), em suma a lei do “pegar ou largar”.
Assim, e no caso específico da realização, tornam-se necessários contratos que respondam a todos os direitos e deveres de forma pormenorizada, incluindo direitos directos e conexos, estabelecendo de forma precisa qual o trabalho que cabe ao realizador nas diferentes fases de produção, as condições necessárias à concretização do projecto e uma orçamentação baseada em factores objectivos e inerentes à realização de cada obra.
Também as opções que de alguma forma subvertam o espírito da obra devem ter a aprovação do realizador e serem acauteladas no contrato.

Outro ponto importante é o investimento inicial dos realizadores na preparação de projectos a entregar ao ICA, com vista à obtenção de apoio financeiro: na maior parte dos casos tudo ou quase tudo é preparado pelo realizador, limitando-se o produtor a preencher um orçamento secreto e a enviar o dossier respectivo ao ICA. Trata-se de um risco que deveria ser remunerado pelo produtor (parte interessada no processo), que com a desculpa do “estamos todos no mesmo barco”, se furta a este tipo de pagamentos.
De notar que antes e durante o desenvolvimento das obras, e por falta de equipas adequadas, o realizador é autor do conceito, do argumento, da realização, do grafismo, das personagens, da direcção da animação, da animação, ou mesmo da produção executiva. Se é verdade que algumas destas funções são remuneradas, a maior parte não o são.
A situação torna-se deste modo insustentável sob o ponto de vista financeiro e logístico para os realizadores, sendo normal perguntar porque existem produtoras, ou se não seria mais justo estudar novas formas de contratualizar os projectos directamente com os seus autores.

Para além destes factores, a abdicação contratual dos direitos autorais ligados à exploração fílmica em benefício do produtor, deveria estabelecer-se com uma percentagem para o realizador.
Para finalizar, assim que cada obra fosse terminada, uma cópia e o depósito de demais materiais deveria ser feito pelo produtor no ANIM, para defesa do material criativo, património indissociável do conjunto da cinematografia nacional.
E observando alguns casos passados, em casos de alienação de propriedade por parte da produtora, o autor deveria ter preferência sob a sua aquisição, e percentagem na sua eventual venda a terceiros, tal devendo figurar no documento contratual.

10. Conclusões
O nosso trabalho deve ser considerado no domínio da actividade artística inerente a uma estrutura com foros de indústria por via da sua especificidade, não mais do que isso. Por tal motivo o sector tem que encontrar fórmulas de criação de um mercado estável, seja através dos meios televisivos, públicos ou privados, seja com outros parceiros ou outras vias de programação. Sem esse mercado definido nunca poderá haver a tão propagada “indústria” com que algumas entidades oficiais gostam de argumentar. Ora, como nem todo o mercado europeu chega para sustentar essa famosa indústria de que tantos falam tão agilmente, então é lógico e lúcido o argumento do «proteccionismo» à divulgação da produção nacional obrigada a percentagens significativas nos quadros diversos da programação. No fim de contas, o sector terá que combater até beneficiar de um política cultural que actue mais do que fale, e que leve a sério este segmento da criação artística nacional.

O cinema de animação português está numa encruzilhada e tem que decidir qual o caminho que vai tomar: ou aposta no mito dessa indústria inexistente, que não será nem estável nem competitiva com os mercados internacionais, ou aposta na sua formação profissional como forma de desenvolvimento de um projecto escorado na diferença, na originalidade, na qualidade, e que possa produzir obras de referência e contribuir para assegurar um verdadeiro cinema de animação português, elaborado em bases sustentadas.
Este problema não pode ser desencadeado nem decidido sem o ponto de vista e a acção directa dos técnicos e criadores do sector. E os realizadores têm, nisso, um papel fundamental a desempenhar.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Audiência com a Ministra da Cultura do 12.07.2010: comunicado

Comunicado da Plataforma das Artes (excertos)
Da audiência que tivemos com a Senhora Ministra, foi-nos comunicado que para o ano de 2010, as disposições do nº 1 do artigo 49º do Decerto de execução orçamental não vão produzir qualquer efeito. De facto, a Senhora Ministra informou-nos clara e inequivocamente que as reduções de 10% nos pagamentos efectuados e a efectuar durante o ano de 2010 não serão executadas.Informou-nos também que a cativação de 20% das verbas do PIDDAC a que o Ministério da Cultura estava sujeito, designadamente as que estavam afectas às actividades de apoio financeiro às Artes, passam para 12,5%. Informou-nos também que a cativação de 20% das receitas próprias do ICA passava para 10%, garantindo-nos que tal permite manter intacto o Plano de Apoios Financeiros em vigor, isto é, nenhum concurso previsto para 2010 será afectado.(...)

Das reivindicações específicas para o Cinema, sublinhamos à Senhora Ministra no nosso documento as seguintes:
Reivindicações específicas do Cinema
10. Promover de imediato à assinatura dos contratos de produção relativos a todas as decisões de atribuição de apoio financeiro referentes a 2009, bem como a homologação dos concursos ainda pendentes.
11. Iniciar de imediato a discussão pública do projecto de nova legislação para o Cinema, por forma a garantir que o processo de aprovação, regulamentação e entrada em vigor se dê até ao final de Outubro de 2010, com efeitos práticos a partir de 1 de Janeiro de 2011.”

Foi-nos comunicado pela Senhora Ministra que com a resolução dos impasses relacionados com o artigo 49º e com as cativações de receitas próprias do Instituto, estão agora reunidas as condições para com a maior brevidade possível se dar andamento a todas as situações pendentes.
Foi-nos comunicado também pela Senhora Ministra que a nova legislação para o cinema já está compilada num primeiro Draft , que após uma fase de análise estará em condições de seguir para Conselho de Ministros no início de Setembro. A Senhora Ministra desse-nos também que era sua intenção colocar o documento à discussão pública o mais brevemente possível.
(...)
A Plataforma das Artes - 13 de Julho de 2010
texto completo

sábado, 10 de julho de 2010

O FICA reiniciou pagamentos

O Ministério da Cultura informa que o FICA – Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual – reiniciou, durante o dia de hoje [09.07.2010], o pagamento de montantes relativos a contratos em execução, garantindo mais um passo no total restabelecimento do seu funcionamento, iniciado em 1 de Junho, após a designação da Banif Gestão de Activos – Sociedade Gestora de Fundos de Investimento Mobiliários, S.A. como entidade gestora e cuja reoperacionalização prosseguirá nos próximos dias.
Com a realização destes pagamentos, o Ministério da Cultura acredita que o FICA reforça um inequívoco papel como parceiro privilegiado dos produtores portugueses de audiovisual e como verdadeiro instrumento de financiamento do Cinema e Audiovisual, apoiando o reforço da actividade do sector.(...)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Defesa do cinema português, por Manoel de Oliveira

Defesa do cinema português

Por Manoel de Oliveira

Senhora ministra, peço-lhe que pense bem nos problemas que estamos a viver, de modo a encontrar soluções eficazes e justas

Em defesa dos realizadores e dos produtores de filmes portugueses neste difícil momento por que estão a passar, em defesa desta boa causa, tenho a dizer o seguinte:

Os filmes portugueses nunca foram ruinosos para o país e os seus custos cremos serem os mais baixos em relação à maior parte dos países. É certo que o momento é de crise, mas o cinema português está longe de ser motivo de ruína para o país e exactamente pelo seguinte:

Cada um dos nossos filmes move um grupo de actores, outros tantos figurantes e uma equipa técnica completa.

Este conjunto de contratados mexe com transportes, com restaurantes, com hotéis, etc., etc. E toda esta gente, com aquilo que ganha, faz as mais variadas compras com esses pequenos ganhos do seu trabalho, e isto, para além dos gastos que as próprias filmagens são obrigadas a fazer para produzir cada um dos seus filmes.

Mais: todos, seja dentro ou fora do filme, pagam impostos e esses impostos, feitas as contas, serão montantes aproximados, se não iguais ou até superiores, ao subsídio que o Ministério da Cultura dá para cada um desses filmes. O que quer dizer que o Estado vem a cobrir ou até a receber mais do que os subsídios que atribui a cada filme.
E quero dizer ainda:

Depois os filmes passam a ser exibidos no país, e quantas vezes vendidos para diferentes outros países, alguns dos meus filmes já passaram por esse mundo fora, em cerca de 27 países, bem como acontecerá com outros colegas, dando a conhecer as nossas expressões cinematográficas e culturais, uma vez que o cinema figura como uma síntese de todas as artes; para além de representar um reforço nos lucros dos produtores, lucros esses favoráveis ao país, como acontece com os livros, com a pintura ou com a música.

Assim como as televisões nacionais mostram aos seus países o essencial do que se passa no mundo, o cinema nacional divulga a cultura de cada país ao mundo.

Nunca senti ser um "peso" para os governos do meu país. Limito-me a fazer o meu trabalho o melhor que sei e posso para o que sinto ter nascido, tentando questionar os seres, as coisas, a nossa história e o mundo através dos filmes que tive o privilégio de realizar. No tempo da ditadura, fui fazer um curso de fotografia em Leverkusen, oferecido pela Bayer, nos seus estúdios da Agfa. A seguir, fui para Munique, onde comprei na Arnold Richter uma câmara de filmar. Montei numa carrinha tudo o necessário de imagem e som para filmar em qualquer lugar e fiz o primeiro filme a cores revelado pela Tobis Portuguesa: O Pintor e a Cidade que ganhou o meu primeiro prémio no Festival de Cork, a Arpa de Prata. E a seguir filmei sozinho mais quatro filmes, incluído o Acto da Primavera, o único para o qual recebera uma ajuda do SNI, por se tratar de um filme religioso e para o qual tive como meu assistente o malogrado António Reis.

Senhora ministra, peco-lhe que pense bem nos verdadeiros problemas que estamos a viver, de modo a encontrar soluções eficazes e justas. Não pergunte quanto ganha um cineasta que por vezes trabalha durante dois anos debruçado repetidas vezes sobre o arranjo do seu guião para o ajustar ao seu reduzido custo de produção, como fora o caso de alguns filmes e em particular do Estranho Caso de Angélica. Nós, realizadores, não temos direito a qualquer reforma. Cada realizador ganha o seu salário só quando filma, sem garantia nenhuma de continuidade. Não pergunte quanto ganha um actor ou um bailarino. Calculo que sabe que não é muito e que a sua derradeira glória poderá vir a ser a de morrer pobre. Pergunte sim, por exemplo, quanto aufere o administrador da Lusomundo/Zon, o abafador, aquele que esconde os nossos filmes, e que não responde mais depois de se assegurar com um contrato, e que não responde nem a nós nem a quem quer ver e mostrar os filmes portugueses.

Neste momento difícil, penso sobretudo nos meus colegas realizadores mais jovens. Para eles, estes cortes são profundamente injustos. E penso que, como eu, eles não podem viver sem uma Cinemateca Nacional forte que possa mostrar, hoje e todos os dias, o que é a história do cinema. Não podem viver sem um laboratório de imagem e de som, como o da Tobis, onde há mais de setenta anos faço os meus filmes. Eles precisam de uma lei do cinema que efectivamente proteja o cinema português. E precisam de ser ouvidos para isso. Eles, como eu, sempre viveram na precariedade e na insegurança, sem reforma nem subsídio de desemprego, e sem nunca sabermos se não estaremos a fazer o nosso último filme. Eles, como eu, só temos um desejo: todos ambicionamos morrer a fazer filmes.
Realizador
no Público, 09.07.2010
(para assinantes)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Contra os cortes orçamentais na área da Cultura - Voto de protesto apresentado pelo PCP na AR

Contra os cortes orçamentais na área da Cultura

O Decreto-Lei de execução orçamental n.º 72-A/2010, de 18 de Junho, inclui um corte de 10 % em todos os apoios atribuídos pelo Ministério da Cultura.

Estas restrições, para além da inviabilização de inúmeros projectos de diversas áreas da criação artística, implicarão a interrupção de projectos em curso, a perturbação grave do funcionamento de estruturas de inegável mérito cultural e poderão mesmo implicar a concretização de despedimentos em vários sectores ligados à produção cultural e artística.

Num Orçamento que dedica ao Ministério da Cultura uns magros 0,29 % da despesa total do Estado, estas opções governamentais terão reduzido impacto na redução global do défice público mas terão consequências muito graves num sector já tão depauperado em termos orçamentais.

Acresce que estas medidas contrariam frontalmente compromissos assumidos no Programa do Governo e violam compromissos assumidos pelo Estado para com os agentes e estruturas culturais.

Estas restrições orçamentais vêm desvalorizar ainda mais a função social dos criadores e dos trabalhadores da área cultural e das suas estruturas, agravando drasticamente as suas condições de trabalho e estabilidade profissional.

Nestes termos, a Assembleia da República, reunida em plenário, exprime o seu protesto pelos cortes e restrições orçamentais impostos pelo Governo ao sector da Cultura, manifesta a sua preocupação em relação às consequências dessas medidas no domínio da criação cultural e artística e afirma a sua solidariedade para com os criadores e profissionais cujas actividades se verão prejudicadas por essas opções governamentais.

Assembleia da República, 8 de Julho de 2010

Este voto de protesto, apresentado pelo Partido Comunista Português, é disctudido e votado sexta-feira 9 de Julho de 2010 na Assembleia da República.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

É a cultura, estúpido! por Daniel Oliveira

É a cultura, estúpido! por Daniel Oliveira (excertos)
(texto completo aqui e aqui)

É quase patético o que o Estado português gasta em cultura. Chega por isso a ser insultuoso que se insista em falar em subsidiodependência quando todo o dinheiro do Estado que nela é investido não daria para uma obra pública que se visse.

Poderá parecer normal a notícia de que os apoios às actividades culturais vão sofrer um corte de 10% graças à cativação geral de 20% do orçamento do Ministério da Cultura, aquele que de longe menos gasta aos contribuintes (e o pouco que recebe gasta consigo próprio) e que tem, em termos relativos, dos orçamentos mais baixos da Europa.

Para uma actividade que vive no limite da sobrevivência (e que já é largamente financiada pelos próprios criadores), 10% é o golpe de misericórdia. Sobretudo se tivermos em conta que, depois de dez anos de cortes sucessivos nos já magros apoios, esta é uma área onde a austeridade não começou agora.
(...)
Não deveria ter de escrever que um País sem cultura nem criadores não é bem um País. Mas vou para outro argumento que talvez, neste tempo, pegue melhor: a cultura e o entretenimento são uma das áreas de maior crescimento em todo o Mundo. Segundo o “Creative Economy Report 2008″ das Nações Unidas, o sector cultural e criativo representava, em 2005, 3,4% do comércio mundial.

Mais recentemente, Augusto Mateus coordenou um estudo onde se concluía que o sector cultural e criativo representava 2,8% da riqueza gerada em Portugal (3,691 milhões de euros) e que dava emprego a 126 mil pessoas. (...) O combustível desta gigantesca indústria são as actividades culturais nucleares. Sem elas, o motor pára. Não perceber isto é o mesmo que achar que é possível ter uma indústria de ponta sem investir em educação.
(...)
A ideia de que num pais da dimensão de Portugal a cultura pode depender exclusivamente do mercado é absurda. Nunca assim foi, nunca assim será. Mesmo potências culturais como a França ou a Alemanha, com mercados internos bem maiores do que o português, investem muito dinheiro público no apoio à produção cultural. E consideram esse investimento uma prioridade. Ele não é um favor a ninguém.
(...)
E só o facto de me ter visto obrigado a dar argumentos económicos para defender o apoio público à cultura diz muito do estado a que já chegámos.

Excesso de zelo, por Catarina Martins

Excesso de zelo, por Catarina Martins (excertos)
(texto completo aqui ou aqui)

O Ministério da Cultura, com um excesso de zelo inesperado, decidiu acompanhar os cortes orçamentais de todo o Governo impondo um corte extra de 10% em todos os contratos assinados com as estruturas independentes de criação e produção artística. Ou seja, no sector cultural, além do aumento do IVA e IRS, além dos cortes nas mais diversas prestações sociais, do subsídio parental ao subsídio de funeral, as estruturas e profissionais têm agora também de lidar com o incumprimento de contratos por parte do Estado.
(...)
E o que se poupa com estes cortes? Nem mais nem menos que 2 Km de autoestrada. Parece anedota, mas não é. O excesso de zelo do Ministério da Cultura, na aprendizagem dos cortes prescritos pelo bloco central, ditou que se pusesse em causa todo um sector por 3 milhões de euros. O sector cultural tem esta virtualidade tantas vezes esquecida: gera muito emprego e riqueza a partir de muito pouco financiamento estatal.
(...)
O Governo que prometeu mais investimento na cultura, tudo o que oferece afinal é desprezo e incompetência.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

CONVOCATÓRIA para a segunda-feira 5 de Julho

A decisão, recentemente comunicada, de reduzir em 10% todos os apoios financeiros atribuídos pelo Ministério da Cultura em 2010 e a cativação de 20% das verbas aos Institutos, que já se encontram há muito fragilizados, terá, para a produção artística e para o sector cultural efeitos devastadores.
Convocamos todos os criadores, trabalhadores e agentes das áreas artísticas e culturais para encontrar soluções que impeçam a aplicação destas medidas que atirarão a arte e a cultura do nosso país para uma crise sem precedentes.

Teatro Maria Matos, 2ª feira dia 5 de Julho às 18h.