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domingo, 28 de março de 2010

Uma deriva perigosa, por Augusto M.Seabra

Uma deriva perigosa, por Augusto M.Seabra (excertos)
(texto completo aqui)

(...) A entrevista (de Gabriela Canavilhas, Ministra da Cultura) no Público de quarta-feira, centrando-se na economia do sector cultural, tendo como fundo o estudo de Augusto Mateus sobre o sector cultural e criativo em Portugal, tem algumas reafirmações importantes mas mostra também uma ministra obnubilada pelo discurso das perspectivas económicas, numa deriva perigosa. Ora, se o estudo é sem dúvida importante, também há que dizer que a vulgarização das ideias de Richard Florida sobre as “cidades criativas” se transformou num tópico do novo capitalismo da sociedade de informação e do conhecimento.
Sem dúvida que a cultura engloba as indústrias culturais, aliás de âmbito reduzido em Portugal (uma indústria da edição livreira flagelada pela sua própria sobreprodução, uma indústria discográfica em crise e uma indigente indústria de telenovelas sem perspectivas de exportação), mas já as agora tão na moda “indústrias criativas” são de um âmbito que em boa parte tem mais a ver com a estrita economia.
Gabriela Canavilhas reitera, o que se anota, que as actividades culturais sem vocação de mercado são “o cerne, o núcleo duro da actividade do MC”. Mas ao mesmo tempo, baixa os braços e prescinde de um reforço orçamental significativo, diz que “os fundos têm estado a crescer”, quando sobretudo têm estado estagnados ou mesmo em queda (vide o caso do cinema, com um decréscimo na última década de mais de 30 por cento, como recentemente alertava um importante Manifesto pelo cinema português), e, o que é mais grave, e tanto mais vindo de uma artista, retoma o nefasto discurso da “subsídio-dependência”.
(...)
A ministra declara taxativa que “o Ministério da Cultura tem que ter a coragem de diminuir o número de apoios e apostar na qualidade”. Os termos da declaração são inquietantes se não se tomarem em conta a cobertura territorial, os primeiros projectos ou obras e aqueles que se apresentem como mais inovativos.
Reafirme-se pois o sublinhado no “núcleo duro”, mas da entrevista deduz-se um sentido de potenciar empresarialmente o sector que é uma deriva perigosa. Donde, a necessidade de uma chamada de atenção.
Augusto M.Seabra - Letra de Forma
(publicado no Público - 28.03.2010)

Justificar o injustificável, por Catarina Martins

Justificar o injustificável, por Catarina Martins (excertos)
(texto completo aqui)

(...) A entrevista da Ministra da Cultura ao Jornal Público aponta um caminho de completa e irresponsável demissão das suas obrigações e desenha opções muito preocupantes. A lembrar outros tempos e na senda das posições mais conservadoras da direita europeia.
A Sr.a Ministra da Cultura, em vez de assumir que não tem condições para actuar com o orçamento de miséria com que conta (0,4% do OE, inferior à media da anterior legislatura), desresponsabiliza-se afirmando que a cultura pode e deve viver do mercado. Reduzir o Estado a uma função de gestor dos desequilíbrios criados pelo mercado é recusar a necessidade de uma política para o Ministério da Cultura. Fazer menos e melhor, como a Sr.a Ministra propõe, é neste caso uma simples fórmula de propaganda e sobrevivência política que nada avança nem recua. E, em vez de defender o financiamento da cultura, ameaçar e insultar os agentes culturais classificando-os de "clientela" e ressuscitando o discurso demagógico da "subsidiodepedência" é pura e simplesmente inaceitável.
Mas a Sr.a Ministra vai ainda mais longe na irresponsabilidade e afirma que ao Estado cabe financiar a "qualidade"; como se acreditasse que existe uma medida única de "qualidade", como se a "qualidade" surgisse isolada e instantaneamente. Em toda a entrevista nada diz sobre a responsabilidade do Estado de promover a pluralidade e diversidade. Pelo contrário, assume que é preciso apoiar menos projectos e chega mesmo a insurgir-se contra o facto de surgirem novos criadores que se candidatam a financiamentos. (...)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Carta da APR à Ministra da Cultura - 19.03.2010

Em 28 de Dezembro de 2009, dirigimos a Vossa Excelência um texto em que expúnhamos os principais pontos de vista da APR sobre o Cinema Português. (...) Porque a situação da actividade e dos profissionais do sector se tem vindo a agravar, consideramos inadiável que sejam tomadas medidas legislativas estruturais de fomento que definam com clareza novas linhas de orientação capazes de assegurar uma produção regular assente em critérios de inovação, qualidade e diversidade.
Não existe hoje em Portugal uma que articule os diversos sectores que o constituem (Produção, Distribuição, Exibição, Estabelecimentos técnicos). Nos anos 60, os realizadores do Cinema Novo cortaram radicalmente com as convenções narrativas (medíocres, a nosso ver) que os tinham antecedido e que justificavam a sua existência com o gosto do público. Antes desse movimento, colocara-se desde sempre num terreno de outra ambição Manoel de Oliveira, referência incontornável para essa geração. Preocupados em delinear caminhos desconhecidos que fossem capazes de abrir portas para o Portugal contemporâneo, ao tempo tão longe dos nossos cinemas, os realizadores não souberam pensar o campo nevrálgico da difusão (promoção, distribuição e exibição) ficando as suas obras, feitas com dinheiros públicos, nas mãos de comerciantes privados, funcionários de facto das grandes empresas norte-americanas e com um gosto formatado por elas.
Neste momento em que mais uma vez o alarme é geral, determinado por sucessivos cortes nos meios financeiros e na redução drástica do número de filmes dotados com subsídio à produção do ICA, entendemos que chegou o momento de o Ministério a que Vossa Excelência preside decidir, de forma clara e pública, se quer estabelecer bases salubres e estáveis para o cinema português, seus criadores e profissionais, ou se prefere resolver os “apertos” de liquidez de dois ou três produtores com boas ligações políticas e sacudir o resto - a maioria - para debaixo do tapete.
Há assuntos que gostaríamos de conhecer e que Vossa Excelência poderia mandar averiguar para seu e nosso benefício, a saber:
Tivemos sempre a maior reserva em relação ao FICA (Fundo de Investimento do Cinema e do Audiovisual), que nos pareceu, desde o início, ao serviço de negócios escuros. Porquê? Porque o seu funcionamento não tem a menor transparência, porque não são conhecidas as regras que o orientam, não são públicos nem conhecidos os critérios que presidem às escolhas feitas, ignoram-se as datas das reuniões, as suas actas, os membros presentes e as suas votações. Em suma, no FICA a opacidade é total. Acontece que boa parte dos meios financeiros disponíveis neste Fundo são dinheiros públicos e por isso a questão torna-se mais sensível e de inelutável esclarecimento.
Esperamos que Vossa Excelência se informe e possa vir a esclarecer todas estas dúvidas. E, já agora, como se diz que o princípio que guia os decisores do Fundo é o das receitas e do lucro das obras financiadas, gratos ficaríamos também - porque há dinheiros públicos envolvidos - que fosse publicada uma lista contendo todos os filmes e séries televisivas produzidas com indicação explícita, caso a caso, da relação investimento/benefício até à presente data.
É nossa convicção que o Estado (o Governo) fez um péssimo negócio com a criação do FICA. Poderia muito simplesmente ter seguido o exemplo de França, cuja legislação (ver aqui) obriga os canais de televisão a entregar ao CNC todos os anos 5,5% do seu volume de negócios do ano transacto na produção cinematográfica e audiovisual (para além das taxas sobre os bilhetes de cinema - 11%, mas TVA (IVA) a 5,5% -, sobre os DVDs, etc.) e devem ainda investir 12,5% do seu volume de negócios na produção. Em Espanha o sistema é semelhante ao de França ; as privadas dão 5% e a TV pública 6% para a produção independente (e têm de aplicar respectivamente 60% e 75% em cinema) e mesmo assim anunciaram um novo fundo.
Mas esta questão, assim como outras, é matéria para uma futura Lei de Cinema que urge.
Por fim, a questão do ICA. A Direcção deste Instituto tem solicitado, nos últimos anos, a colaboração da APR para a discussão dos regulamentos ou da sua revisão. Apesar dos esforços dos realizadores,os melhores conhecedores da actividade que é sua profissão e sua arte, que se mobilizaram e se organizaram de uma forma inédita, tudo foi em vão. Nenhuma sugestão nossa foi tida em conta e, aparentemente, a opinião dos realizadores apenas merece da Direcção do ICA desprezo e desconsideração.
Mais fica por dizer (...)
Deve Vossa Excelência entender esta missiva como um complemento ao documento que lhe enviámos em 28 de Dezembro que resumia, nessa data, as principais preocupações da APR e dos seus associados.

Com os mais respeitosos cumprimentos,
A Direcção da APR

quarta-feira, 24 de março de 2010

"O Ministério da Cultura tem que ter a coragem de diminuir o número de apoios e apostar na qualidade"

Gabriela Canavilhas - Entrevista no Público (texto completo aqui):

(...) Acho é que o MC tem que ter a coragem de aplicar melhor as suas verbas. Tem havido alguma preocupação em satisfazer clientelas. Qualquer entidade nova tem acesso aos concursos, aos apoios às artes, até o cinema. É um espaço permanentemente aberto. E os fundos são o que são, têm estado a crescer mas não estão equiparados ao potencial de novos agentes que entram neste mercado. O MC tem que ter a coragem de subir a fasquia, diminuir o número de apoios e apostar na qualidade. Até hoje não houve ainda vontade de dar esse passo. Eu tenho muita vontade de reflectir sobre isso e eventualmente dar passos nesse sentido. Acho que é preferível apoiar mais e melhor menos intervenientes do que espalhar pouco por muitos, o que leva não a um crescimento sustentado na qualidade mas apenas a ter mais intervenientes no sistema.

E com que critérios?
Os critérios estão a cargo dos júris e não quero discuti-los. O que me parece é que há essa preocupação de ir alimentando um sector e que se vai permitindo que cada vez mais entidades entrem no sistema da subsídio-dependência. Se calhar, está na altura de orientarmos melhor, e com mais investimento, menos projectos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

MANIFESTO PELO CINEMA PORTUGUÊS - PARA A MINISTRA DA CULTURA

MANIFESTO PELO CINEMA PORTUGUÊS


Nunca como nos últimos vinte anos teve o cinema português uma tão grande circulação internacional e uma tão grande vitalidade criativa. E nunca como hoje ele esteve tão ameaçado.
No mesmo ano em que um filme português ganhou em Cannes a Palma de Ouro da curta-metragem e tantos e tantos filmes portugueses foram vistos e premiados um pouco por todo o mundo, o cinema português continua a viver sob a ameaça de paralisação e asfixia financeira.
Desde há dez anos que os fundos investidos no cinema não cessaram de diminuir: a produção e a divulgação do cinema português vivem tempos cada vez mais difíceis.
E a criação de um Fundo de Investimento (e a promessa de um grande aumento de financiamentos), revelou-se uma enorme encenação que na generalidade só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos.
O cinema português vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos e em particular da senhora Ministra da Cultura.
O cinema português - o seu Instituto - ao contrário do que é repetido vezes sem conta, é financiado por uma taxa (3,2%) sobre a publicidade na televisão, e não pelo Orçamento de Estado.
O financiamento do cinema português desceu na última década mais de 30% e a produção de filmes, documentários e curtas-metragens, não tem parado de diminuir.
O Fundo de Investimento no cinema, que era suposto trazer à produção 80 milhões de euros em cinco anos, está paralisado e manietado pelos canais de televisão e a Zon Lusomundo, e não só não investiu quase nada, como muito do pouco que investiu foi-o em coisas sem sentido.

Por isso se torna imperioso e urgente
a) normalizar o funcionamento desse Fundo e multiplicar as verbas disponíveis para investimento na produção de cinema, nomeadamente multiplicando as receitas do Instituto de Cinema, e tornando as suas regras de funcionamento transparentes e indiscutíveis;
b) normalizar a relação da RTP (serviço público de televisão) com o cinema português, fazendo-a respeitar a Lei e o Contrato de Serviço Público, assinado com o Estado Português;
c) aumentar de forma significativa o número de filmes, de primeiras-obras, de documentários, de curtas-metragens, produzidos em Portugal;
d) e actuar de forma decidida em todos os sectores – não apenas na produção, mas também na distribuição, na exibição, nas televisões (e em particular no serviço público), e na difusão internacional do cinema português.

Depois de mais de seis anos de inoperância e desleixo dos sucessivos Ministros da Cultura, que conduziram o cinema português à beira da catástrofe, impõe-se:
1. Normalizar o funcionamento do FICA (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual) reconduzindo-o à sua natureza original: um fundo de iniciativa pública, tendo como objectivo o aumento dos montantes de financiamento do cinema e da ficção audiovisual original em língua portuguesa e o fortalecimento do tecido produtivo e das pequenas empresas de produção de cinema. E fazer entrar nos seus participantes e contribuintes os novos canais e plataformas de televisão por cabo (meo, Clix, Cabovisão, etc), que inexplicavelmente têm sido deixados fora da lei;
2. Multiplicar as fontes de financiamento do cinema português, nomeadamente junto da actividade cinematográfica, recorrendo às receitas da edição DVD (a taxa cobrada pela IGAC, cuja utilização é desconhecida, e que na última década significou dezenas de milhões de euros); à taxa de distribuição de filmes (que há décadas não é actualizada) e à taxa de exibição. As receitas das taxas que o Estado cobra ao funcionamento da actividade cinematográfica devem ser integralmente reinvestidas na produção e na divulgação do cinema português (produção, distribuição, edição DVD, circulação internacional);
3. Aumentar as fontes de financiamento do Instituto de Cinema, para aumentar o número, a diversidade, a quantidade e a qualidade, dos filmes produzidos. Filmes, primeiras-obras, documentários, curtas-metragens, etc.
4. Apoiar os distribuidores e exibidores independentes, e estimular o aparecimento de novas empresas nesta actividade, de forma a que o cinema português, o cinema europeu e o cinema independente em geral, possam chegar junto do seu público. E apoiar os cineclubes, as associações culturais e autárquicas, os festivais e mostras de cinema, que um pouco por todo o país fazem já esse trabalho;
5. Fazer cumprir o Contrato de Serviço Público de Televisão por parte da RTP, que o assinou com o Estado Português, e que está muito longe de o respeitar e às suas obrigações, na produção e na exibição de cinema português, europeu e independente em geral. E contratualizar com os canais privados e as plataformas de distribuição de televisão por cabo, as suas obrigações para com a difusão de cinema português.

O cinema português, que vale a pena, tem hoje em dia, apesar da paralisia, quando não da hostilidade, dos poderes públicos, um indiscutível prestígio internacional. Os seus realizadores, actores, técnicos, produtores, não deixaram de trabalhar apesar de tudo o que se tem vindo a passar. Está na altura de os poderes públicos assumirem as suas responsabilidades.
É necessária uma nova Lei do Cinema, mas é urgente uma intervenção de emergência no cinema português.

os realizadores
Manoel de Oliveira / Fernando Lopes / Paulo Rocha /
Alberto Seixas Santos / Jorge Silva Melo / João Botelho
Pedro Costa / João Canijo / Teresa Villaverde
Margarida Cardoso / Bruno de Almeida / Catarina Alves Costa
João Salaviza

e os produtores
Maria João Mayer (Filmes do Tejo) / Abel Ribeiro Chaves (OPTEC)
Alexandre Oliveira (Ar de Filmes) / Joana Ferreira (C.R.I.M.)
João Figueiras (Black Maria) / João Matos (Terratreme)
João Trabulo (Periferia Filmes) /Pedro Borges (Midas Filmes)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Sobre o Fica - Carta dos realizadores (APR) à Ministra da Cultura

Carta dos realizadores reunidos na APR à Ministra da Cultura - II- enviada no 28.12.2009 (texto completo da carta em pdf)

A Arte do Cinema tem sido alvo, nos últimos anos, de uma continuada política contra os seus criadores e profissionais. A expressão dessa política é a nova Lei do Cinema (em pdf) e a criação do Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual (FICA), que não teve a participação nem a aprovação dos realizadores portugueses. (...)
Dois anos passados sobre o aparecimento do FICA é forçoso reconhecer o fracasso de uma política baseada nas projecções de rentabilidade e na mediocridade dos seus produtos. A ser fundamentada, a indústria do Audiovisual devia estar enquadrada no Ministério da Economia e nunca no da Cultura.
Com uma bolsa de 83 milhões de Euros para os próximos anos, continuam a ser nebulosos os critérios do funcionamento do FICA no que respeita ao cinema e diminuto o espaço da sua intervenção no sector.
Cabe esclarecer que o capital do FICA tem maioritariamente origem em recursos oriundos de empresas com participações estatais ou instituições do Estado. Porque é que este Fundo é aparentemente “dirigido” pelo representante da ZON-Lusomundo que representa apenas 5%? Porque é administrado pelo BES-ESAF? Onde estão os fundos privados? Onde está o capital de risco? Que controle existe sobre a participação financeira das televisões?
Este fundo apresenta os seus apoios como empréstimos reembolsáveis. Face à conjuntura do mercado perguntamos: Como? Quando? E em quanto tempo? Foram dadas como garantias dos empréstimos as acções das empresas beneficiadas que valem zero. Daqui a 3 anos (5 anos) ficará provado que esta política foi um desastre mas será então demasiado tarde e não haverá nada para a substituir.
Associação Portuguesa de Realizadores - APR
(texto completo da carta em pdf)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ministra afirma que Cultura é prioridade e reiterou o seu objectivo de duplicar o orçamento para o Ministério de Cultura

Gabriela Canavilhas foi ontem ao Parlamento apresentar o programa do Governo para a Cultura e reiterou o seu objectivo de duplicar o orçamento do anterior Executivo para o ministério que dirige há oito semanas (de 0,3 para 0,6 por cento do Orçamento do Estado).
no Correio da Manhã, por Ana Maria Ribeiro

domingo, 29 de novembro de 2009

A ministra da Cultura disse ter a certeza que a Cultura vai ser alvo de uma atenção especial no Orçamento do Estado

Não tenho nenhuma dúvida que vai haver para a Cultura uma atenção especial do senhor primeiro-ministro e do senhor ministro das Finanças, tendo em conta o pressuposto de que, cada vez mais, é um eixo de desenvolvimento nacional, afirmou hoje Gabriela Canavilhas.
Em declarações aos jornalistas, a ministra da Cultura escusou-se a fazer uma previsão sobre a percentagem do OE que será atribuído ao seu ministério, mas lembrou que a Cultura movimenta 2,8 por cento do PIB [Produto Interno Bruto], em termos de receitas, o que, acrescentou, é mais do que o investimento público que é feito para a Cultura.
Ainda é cedo para falar de números, considerou, lembrando que os números estão a surpreender pela negativa, em termos gerais, e os números que vierem para a Cultura vão ter em conta esse contexto.
Apesar de estar consciente de que o OE tem que ter em conta as dificuldades económicas, Gabriela Canavilhas reforçou que o orçamento tem que permitir a promoção de iniciativas e de estratégias que façam da Cultura uma nova maneira de estar e de desenvolver o país.
A ministra da Cultura recordou que o primeiro-ministro já manifestou, quer antes das eleições quer no discurso de apresentação do programa de Governo (aqui em pdf), o interesse e a atenção que quer dar à Cultura como eixo estratégico de desenvolvimento nacional.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Programa do XVIII Governo para a área da cultura

Programa do XVIII Governo Constitucional para a área da cultura
(Diário da Assembleia da República - II Série A – nº 3 – 3 de Novembro de 2009)
Excertos:

Capítulo II – Conhecimento e Cultura

4. Investir na Cultura

A cultura constituirá, na legislatura de 2009-2013, uma prioridade do Governo, no quadro das políticas de desenvolvimento, qualificação e afirmação do País. São três os nossos compromissos centrais:
Reforçar o orçamento da cultura durante a legislatura, de modo a criar as condições financeiras para o pleno desenvolvimento das políticas públicas para o sector;
Assegurar a transversalidade das políticas culturais, garantindo a coordenação dos ministérios e departamentos envolvidos em políticas sectoriais relevantes para a cultura;
Valorizar o contributo decisivo da criação contemporânea para o desenvolvimento do País, fomentando a constituição de redes ou parcerias e promovendo o aumento e diversidade das práticas culturais, através de políticas transparentes de apoio aos criadores, à formação de públicos e a uma maior interacção entre cultura, ciência e educação. Assim, serão assumidos como objectivos da política cultural criar condições para que os cidadãos portugueses sejam culturalmente mais qualificados e mais participativos nas práticas culturais e na definição das políticas da cultura, no quadro de uma cultura do conhecimento, da criatividade e da inovação; assegurar que o ambiente social e urbano seja mais qualificado do ponto de vista do património e da memória, seja mais estimulante do ponto de vista do exercício dos talentos e mais facilitador da vida colectiva, criando espaços de encontro e interacção físicos e virtuais; disponibilizar meios económicos e instrumentos organizativos, estimulando a autonomia e incentivando os artistas e agentes culturais, permitindo-lhes exercer os seus talentos de forma mais livre, mais aberta e mais visível.
São de destacar três áreas: Língua; Património; Artes e Indústrias Criativas e Culturais. (...)
Artes e Indústrias Criativas e Culturais
O Governo reforçará os apoios aos artistas e aos criadores, bem como às artes e às indústrias criativas e culturais. Assim:
Promoverá a educação artística nos diferentes níveis de ensino e desenvolverá programas de incentivos à promoção das artes e à formação de novos públicos (...)
Reforçará a forma de financiamento de apoio às artes e ao cinema, reformulando, ouvidos os profissionais do sector, o Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual;
Defenderá um pleno empenhamento das televisões na produção e difusão do cinema português; (...)
Aperfeiçoará o estatuto de carreiras artísticas, visando o aprofundamento dos mecanismos de apoio no desemprego, na doença e na reforma às profissões artísticas e aos artistas cujas actividades estão sujeitas a permanentes intermitências (...)
Estimulará a produção audiovisual independente e promoverá, nesse contexto, a criação independente de conteúdos em Língua Portuguesa;
Promoverá, estimulará e apoiará a criação, o desenvolvimento e a internacionalização de programadores independentes e a sua disseminação em rede (...)
Dará especial atenção ao apoio à criação artística, em especial em áreas que não podem ser abandonadas à pura lógica do mercado, designadamente o teatro, a música, a dança, o circo, as artes visuais, o cinema e o audiovisual.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Governo: Cultura terá orçamento "reforçado"

O programa de Governo hoje entregue na Assembleia da República assegura que a Cultura vai ser "uma prioridade" do Executivo socialista para os próximos quatro anos, prometendo "reforçar o orçamento" do sector mas sem especificar valores.
A criação de "condições financeiras para o pleno desenvolvimento das políticas públicas" na área da Cultura é proposta no texto aprovado hoje em Conselho de Ministros e entregue no Parlamento, documento com um texto igual ao do programa eleitoral do PS.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

LEMBRANÇAS XVI - José Socrates : "deveríamos ter investido mais em cultura"

Sócrates assume erro de ter investido pouco na cultura.
O primeiro-ministro apontou, esta quarta-feira, como exemplo de um erro cometido pelo seu Governo nesta legislatura a ausência de um investimento volumoso na área da cultura, tal como aconteceu com a ciência nos últimos anos.
Querem um exemplo [de um erro], então vou dar-vos um exemplo, terão aí uma notícia, disse José Sócrates aos jornalistas no final do debate da moção de censura do CDS-PP ao Governo.
Se há um erro que é possível identificar ao longo destes anos é que talvez deveríamos ter investido mais em cultura, tal como fizemos em ciência, disse.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

João Salaviza: "Os filmes são anteriores aos prémios"


Parabéns João Salaviza!


A APR congratula-se com a Palma de Ouro que o realizador João Salaviza conquistou em Cannes para a melhor curta-metragem com o seu filme Arena e com a forte presença de realizadores portugueses este ano no Festival de Cannes e na Quinzaine des Réalisateurs.
Congratula-se ainda mais porque estes realizadores representam um cinema que neste momento está ameaçado.
Mas, estaremos nós no melhor dos mundos? Seria bom, mas a verdade é que os responsáveis da actual política para o cinema (ou seja: a não política) poderão retirar daí proveito politico, mas será suficiente para que deixem de programar a lenta asfixia deste cinema?

Entrevista de João Salaviza
por Francisco Ferreira no Expresso

domingo, 29 de março de 2009

Cinema: O Estado das Coisas em Portugal!

excertos da entrevista de Paulo Branco no Correio da Manhã

Como está o estado actual do cinema em Portugal?

A época de ouro do cinema português, anos 80 e 90, quando apareceram pessoas como o Pedro Costa, o Manoel de Oliveira, o João César Monteiro, a Teresa Villaverde, o João Botelho, e hoje, a comunidade política e a comunicação social têm tendência a esquecer-se desse período que levou o cinema português além-fronteiras. A qualidade do cinema em Portugal só foi possível graças a uma estrutura que, mal ou bem, resistiu às mudanças de governo, às mudanças de ministros. Essas estrutura é que tem de ser reforçada e não questionada. O Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), com as diversas denominações que teve ao longo dos tempos, foi o instrumento número um, que possibilitou ao cinema português ter aquela áurea enorme técnica.

Para si, o ICA foi então o grande impulsionador do cinema?
Exactamente. Fez aparecer poucos, mas alguns, produtores, muitos, e grandes realizadores e actores. Os grandes actores da televisão actual começaram no cinema. Rita Blanco, Bernardo Luís, Alexandra Lencastre, Margarida Vila-Nova... E o importante neste momento é não destruir esta base mas sim reforçá-la. E é preciso lembrar que nada disto foi feito com o orçamento geral do Estado, mas sim através da taxa de 4 por cento derivada da publicidade. Os contribuintes não tiveram participação e até deviam ter tido, como em tudo.

Então o que passa no cenário actual do cinema?
Há uma grande ignorância e novo-riquismo os decisores que estremeceram, nos últimos três anos, esta estrutura que é indispensável e devia ter mais fundos para além da taxa dos quatro porcento. Em vez de ter havido o reforço dos meios do ICA, houve um deslumbramento para caçar, a qualquer preço, espectadores. O grande cinema não pode ser feito com esse espírito. Mais do que isso, houve um desvio de uma lei que nos punha ao nível da Europa e que, de certa forma, obrigava qualquer operador audiovisual a investir em cinema e audiovisual. Isso foi transformado num projecto que só tem trazido a pior confusão e um grande oportunismo. É quase um caso de polícia.

Está a falar do Fundo de Investimento no Cinema e Audiovisual (FICA)?
Sim, é um discurso demagogo e aldrabão e uma caça ao dinheiro do Estado, através do Ministério de Economia. Este fundo é uma lei desviada dos contornos originais e que promete retornos impossíveis de obter. É um monstro, um aborto, que não tem nada a ver com critérios culturais. Mesmo que um filme faça 300 mil espectadores, o retorno ao produtor são 150 mil euros e os filmes são feitos com, pelo menos, um milhão e meio ou dois milhões de euros. Portanto não há retorno (como é regra para obtenção do fundo). A Lei que devia fomentar a cultura acabou por ser esquecida e desviada.
(...)
Os filmes apoiados pelo FICA não conseguem então cumprir a regra do retorno relativa a este fundo?
É uma profusão de audiovisual de baixa qualidade mas não consegue espectadores para dar retorno nem sequer a nível cultural. Só dá uma imagem do país inacreditável e ‘inexportável’.

Então acha que se devia abolir o FICA?
O FICA nunca devia ter existido. A única estrutura que devia gerir o audiovisual em Portugal era o ICA e sem permitir baixar a qualidade. Não sei quem vai querer comprar, lá fora, o ‘Equador’ e é inacreditável que o primeiro produto audiovisual sobre Salazar tenha sido aquilo (‘A Vida Privada de Salazar’). Estamos muito abaixo de Berlusconi. E isto tem sido feito com o beneplácito do próprio ministro da Cultura que diz que isto não tem nada a ver com ele e adoptou a posição de avestruz.

E o ICA serve os propósitos do cinema português?
Tenho muitas críticas ao funcionamento da instituição mas não ponho em causa a estrutura. Quero é o reforço da estrutura com um reforço de verbas e responsabilização na promoção e desenvolvimento da produção audiovisual, além da cinematográfica, e com critérios de qualidade. Deviam ser criadas condições para que o ICA funcionasse melhor: deixasse esta burocratização excessiva e reforçasse as suas receitas – até podia ser com o reforço de 1% do volume de negócios das televisões privadas –, ter uma maior preocupação na distribuição e exibição e uma transparência no apoio a festivais. E rever o incentivo a primeiras obras, assim é difícil surgirem novos realizadores...

Há novos talentos no cinema?
Eu fiz nascer muitos novos e bons realizadores mas só com 10 filmes por ano é muito difícil fazer surgir novos talentos. Ou se criam condições para mais filmes ou não só não surgirão novos como será difícil confirmar os que existem.

Concorreu nas duas edições (e únicas até à data) do seu Estoril Film Festival?
Sim, mas segundo o ICA o festival teria de existir há mais de três anos.

Só terá, eventualmente, apoio na quarta edição?
Mesmo aí já me disseram que atribuíram a maior parte das verbas, nos contratos-programa de três ou quatro anos.

Como vê esse facto?
Quem dirigia o ICA, muitas vezes, seguia directrizes, nem sempre muito claras, do Ministério da Cultura. Enquanto o ministério tinha condições, corria tudo bem...

Está a falar de que época no ministério, da de Manuel Maria Carrilho?
Até aos tempos dele. Desde então nenhum ministro se leva a sério. Era importante o ministério da Cultura ter uma parte, do orçamento geral do Estado para a Cultura. A partir do Manuel Maria Carrilho, tudo descarrilou. Durante esse período, havia pessoas mais ou menos qualificadas no ICA e uma preocupação e atenção por parte do ministério.

E agora...
A seguir a Carrilho, o ICA passou a ser um depósito de funcionários públicos, pessoas que desembarcaram ali por amizades políticas e sem nenhuma experiência no cinema. E os ministros deixaram essas pessoas ir gerindo a situação. Ultimamente, numa tentativa de criar uma maior transparência, houve uma burocratização kafkiana e começaram-se a criar regulamentos. Criou-se uma teia de regulamentações e uma forma incompreensível de eleger os júris e distribuir os apoios anacrónica e completamente errada, com um lavar das mãos dos ministros. Chegou-se a um ponto absurdo em que os funcionários têm um poder absoluto e inventaram regulamentos impraticáveis e agora dizem que já não os podem mudar...e foram eles que os criaram. Por exemplo, as curtas-metragens têm de ter até 90 minutos e as longas-metragens a partir dessa duração. E um dia eu comentei: ‘Mas há grandes obras-primas só como 70 ou 80 minutos, como é que fazemos?’ ‘Só tem de ampliar o genérico mais uns minutos, foi a resposta que me deram’...

Quem?
O Dr. Nuno Fonseca, que já não está na direcção. O caso de ‘Singularidades de Uma Rapariga Loira’, última obra de Manoel de Oliveira, tem 64 minutos é um caso fora-da-lei. Este é só um exemplo para se perceber o anacronismo dos regulamentos que foram inventados...

Mas considerando ‘Os Mistérios de Lisboa’, que o Paulo Branco quer produzir e filme com o qual se candidatou ao ICA, em que discordou do regulamento (ao ponto de interpor uma providência cautelar, entretanto dada como improcedente, e consequente recurso)?
Eles tentam objectivar situações difíceis de serem objectivas. E o ICA tem júris que não têm relação nenhuma com o cinema ou a produção de filmes. É muito grave que sejam essas pessoas que vão analisar quem deve ou não deve filmar. Neste caso, o que se passa é que é tudo objectivado. (...)

domingo, 22 de março de 2009

UMA LEGISLATURA PERDIDA EM TERMOS DE POLÍTICAS CULTURAIS

O antigo ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, lamenta que a política cultural se tenha tornado "cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível, ameaçando fazer dos anos 2005/2009 uma legislatura perdida para a cultura" e sugere que "a Fundação Res Publica (ou o fórum Novas Fronteiras), retomando o espírito dos Estados Gerais - isto é, um espírito de real abertura e de efectivo debate- abra uma ampla discussão sobre a situação e o futuro das políticas culturais em Portugal, com a intenção de as refundar". (...) A difícil conjuntura económica pela qual Portugal passa “de modo algum justifica, seja o estado de abandono a que a cultura tem sido votada, seja o desinvestimento de que tem sido objecto e que pode provocar danos irreversíveis”.

sexta-feira, 20 de março de 2009

NÃO HÁ QUEM SE ESCANDALIZE? NÓS ESCANDALIZAMOS-NOS.

SÓCRATES E OS EMPREITEIROS

O ministro da cultura não deve ter uma politica de gosto
José António Pinto Ribeiro
ao Expresso em 12 de Julho de 2008.

A Arte não pode ser adiada pelo peso morto do público...
Henri Matisse, 1946


Não, não se trata nem do caso Freeport, nem do caso Lena, nem sequer das casitas da Beira. O assunto é outro e para nós mais sério.
Estrearam-se nos últimos tempos nas salas portuguesas O Crime do Padre Amaro, Corrupção, Call Girl, A Arte de Roubar, Amália, o Filme, Second Life e nos écrans de televisão as super-produções Equador e A Vida Privada de Salazar.
O senhor ministro não tem gosto? Tem. É este !
Gosto que ficará também para sempre ligado a este governo do Partido Socialista.
O dinheiro que pagou estes produtos audiovisuais é maioritariamente dinheiro público vindo do Fundo de Investimentos para o Cinema e o Audiovisual – FICA ( 40% do total – IAPMEI, Estado, 30% ZON Lusomundo, dedutíveis nos impostos, portanto Estado, 6% RTP ainda Estado. Só 12% vindos da SIC e 12% da TVI são fundos privados ). Quer isto dizer que 76% do total são fundos públicos.
Estes “conteúdos” foram anunciados como produções de montantes financeiros elevados. Acrescente-se ainda o custo de dezenas de cópias, das gigantescas campanhas publicitárias (televisão, imprensa, outdoors, transportes públicos, etc.) que podem calcular-se em milhões de euros.
Sabemos o que nos vão responder: é capital para recuperar. Mas, em vez de nos mostrarem a relação entre os investimentos e as receitas, como fazem as revistas profissionais da indústria americana que tanto admiram ( Variety, Hollywood Report, etc. ), vão atirar-nos com o número de espectadores. Não admira ! Com 72 cópias em exibição simultânea e com uma brutal campanha de promoção qualquer produto deste género terá resultados semelhantes.
Mas alguma vez será recuperado o dinheiro investido?
Vamos à Matemática. Por exemplo : um grande êxito de público que atinja os 200 000 espectadores, para as contas serem simples, faz de receita bruta € 900 000 que são distribuídos do seguinte modo : € 540 000 para o exibidor (a sala), € 108 000 para o distribuidor e finalmente € 252 000 para o produtor. Os empreiteiros do audiovisual anunciaram o custo de cada um dos seus produtos com um valor médio acima de € 1 500 000, alguns mesmo muito acima. Magnífico embuste ! Todos sabem isto e fingem que não sabem.
Santa hipocrisia !
Se fossem fundos privados nada tínhamos a dizer, mas são dinheiros públicos, senhores !
Curiosa contradição : porque é que o Ministério da Cultura através da Direcção Geral das Artes se recusou até hoje a atribuir apoios financeiros comerciais a Filipe la Féria , uma das quais até se chamava Amália e decidiu apoiar com entusiasmo estes conteúdos audiovisuais ? O que é que se está a passar na politica cultural deste governo ?
Expliquem-nos !
E o mais grave é que esses fundos do Estado foram entregues a empreiteiros gananciosos e grosseiros que levaram as imagens e os sons ao grau zero da escrita. Já nem sequer é o saudosismo das comédias pequeno burguesas dos anos 30 e 40. É o regresso à humilhante decadência do cinema salazarista dos anos 50 e 60 do século vinte ( Sarilho de Fraldas, A Raça, Tarzan do 5º Esquerdo, O Amor desceu em Pára-quedas, Os Toiros de Mary Foster, Rapazes de Táxi, Sonhar é fácil, etc. ) agora actualizados pelas cores berrantes e as lantejoulas do audiovisual.
Há uma ideia forte por detrás desta ideologia : o desprezo pelo público, a certeza da sua estupidez natural. Roça o fascismo. Terão estes empreiteiros pequeno-burgueses a noção da doutrina que os habita ?
E no meio disto o que faz e o que diz o Ministro da Cultura ? Nada ! Lava as mãos como Pilatos.
Ele, que aceitou o mais vergonhoso orçamento para a Cultura, 0,4 % !!! ( A maioria dos países Europeus têm orçamentos para a Cultura de 1% ou mais ), diz que não é nada com ele e pensa nos modelos escandinavos.
Explicará este gosto pelo estrangeiro a contratação de um tal Martin Dale que há cerca de uma década foi o teórico responsável de uma patética empresa de conteúdos ( Conteúdos S.A. ) que felizmente não medrou entre nós. O rapaz, agora mais velho, volta à carga para estruturar uma indústria cinematográfica, o audiovisual e a nossa vida. Já chega ! Já demos !
Nunca vimos tamanha caldeirada ( paga por quem e com que fim ? ) nas doze páginas da revista Variety, distribuída no Festival de Berlim do corrente ano, pagas pelo Estado Português e assinadas maioritariamente por Martin Dale. Alguém nos acuda ! Oxalá !

Para ocultar o desespero e a desgraça da vida das pessoas deste país, reina a euforia e o riso alvar neste novo mundo do audiovisual. É verdade que há uns rabitos e umas mamitas e que descobriram a “coisa lésbica” como sinal de modernidade para relançar o machismo mais rasteiro.
As narrativas são rudimentares e comandadas pela identificação simplista apelando ao voyeurismo congénito do espectador, apregoando o triunfo de uma gramática primária: hipertrofia do grande plano, indigentes campos, contra-campos, movimentos de câmara que tentam desesperadamente tornar grandes coisas que são ninharias, iluminação uniforme e monótona empastelando tudo, incapacidade de pensar a relação entre a luz e a sombra. E os seres humanos que deviam habitar essas luzes e essas sombras aparecem despojados da sua dignidade, do seu sangue, da sua vida, transformados em apenas “mercadoria”, coisas a vender, “enxúndia”!
As televisões e o seu audiovisual criaram este olhar pacóvio, infantilizaram a espécie humana, mas de um modo sebento, untuoso, porco. Esta ideologia hedonista que se exibe continuamente nos programas de televisão ( concursos, jogos e até na informação ) chegou ao cinema português.
Não há quem tenha vergonha? Não há quem se escandalize?
Nós ! Nós temos vergonha. Nós escandalizamo-nos.
E o que é que o senhor Augusto Santos Silva, Ministro das Televisões e da propaganda deste governo que é “quien todo lo manda” nesta área, tem a dizer ? Nada ! Cala-se, porque “quién todo lo manda” são as televisões.
E no entanto quando era da oposição, declarava:
Não aceitamos que a selecção dos apoiados caiba a uma oligarquia de gestores, não aceitamos a menorização de uma parte importantíssima da nossa criação contemporânea, que é o cinema português reconhecido e admirado em todo mundo."
Ou ainda:
Não pensamos, que compita ao Estado obrigar os investidores privados a investir, nem que se deva destruir a Cultura Cinematográfica que temos pela ilusão de uma grande produção de conteúdos ou de um cinema dito comercial para que o pais não tem escala nem o Ministério tem vocação.”
Que perda de memória ! Que tristeza !
...
Exigimos de uma vez por todas a separação total do cinema da ganga do audiovisual.
Exigimos a manutenção e o reforço da autonomia do Instituto do Cinema que deve voltar a designar-se Instituto Português do Cinema. ( Todos os grandes filmes portugueses foram a partir de 1974 assistidos financeiramente pelos fundos do Instituto e lembramos ao senhor Ministro da Cultura que nenhum deles foi produzido ou realizado por empreiteiros. )
Exigimos um Instituto que defenda e prolongue a tradição do novo no Cinema Português.
Exigimos regras transparentes e júris competentes para os concursos públicos. ( Saberão os portugueses que o nosso cinema não recebe um euro do orçamento geral do Estado ? )
Exigimos o aumento das dotações financeiras para o Instituto que se deverá reflectir num maior número de produções. Mais e sempre melhores filmes !

O Cinema Português não pode morrer. Se ele morrer a culpa é vossa, Sr. Ministro da Cultura, Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares, Sr. Primeiro Ministro. Haja respeito!

João Botelho, Alberto Seixas-Santos, José Nascimento,
Membros da Associação Portuguesa de Realizadores
in Publico - Espaço Público
23 de Fevereiro de 2009

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Não queremos esta política para o cinema

O Cinema Português - aquilo que se constituiu como actividade artística, ao arrepio das lógicas e das práticas de massificação embrutecedora - tem-se revelado um dos mais belos frutos da energia que, desde as importantes convulsões históricas em torno de Abril de 1974, impele todos quantos nele se envolvem (realizadores, actores, técnicos, espectadores...) a mexer na vida e no mundo. Basta atentar na maneira como os objectos artísticos que decorrem desse cinema singular interpelaram e continuam a interpelar quem, dentro e fora do país, os descobre e com eles dialoga.
Nós, realizadores, envolvidos a diversos títulos, nos olhares, nos modos de fazer e nas práticas de pensamento, que caracterizam o cinema que defendemos, queremos tornar claro que :
- Rejeitamos todas as manobras de gabinete que visam destruir, em lugar de alargar e aperfeiçoar, as estruturas de apoio ao cinema enquanto actividade artística.
- Recusamos a política - iniciada em 2002 - que tem levado o Instituto de Cinema, ao longo de sete anos, a um progressivo esvaziamento das suas funções: diminuição drástica de filmes apoiados, portas cada vez mais fechadas a novos realizadores e a projectos mais experimentais, falta de transparência dos júris, redução de tudo o que é essencial para o desenvolvimento de um cinema vivo e independente.
- Indignamo-nos contra todas as formas de capitulação ou cumplicidade dos responsáveis que — sob a pressão de agentes do mercado empenhados em reduzir o cinema a uma actividade puramente comercial e a coberto de escandalosas mentiras — visam transformar o frágil sistema de apoios financeiros à criação cinematográfica em linhas de crédito a fundo perdido para alimentar produtores sem escrúpulos e realizadores sem projecto artístico.
- Tudo faremos para impedir que os escassos meios de que o estado dispõe para promover a actividade de criação cinematográfica sejam desbaratados na produção de «conteúdos » boçais: a existência deles só deveria depender das receitas que as regras do mercado lhe concedessem. É inadmissível que sejam meios financeiros dependentes do Estado que os sustentem.
- Queremos um Instituto de Cinema, que apoie e redinamize o Cinema, que o defenda e que seja capaz de reestabelecer o diálogo - e não um simulacro de diálogo - com os realizadores, os seus principais responsáveis.
- Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para denunciar todas as tentativas de aniquilação do nosso cinema enquanto memória viva e instrumento para pensar os passados e os futuros de Portugal.
APR- Associação Portuguesa de Realizadores
texto aprovado na Assembleia Geral da APR do 12 de Fevereiro 2009

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A política do cinema em 2009

A política para o cinema do Estado Português nos últimos anos consubstanciou-se na criação em 2007 do FICA, um fundo de capitais maioritariamente públicos gerido por uma entidade bancária e administrado pela Zon/Lusomundo e pelos canais de televisão. A criação deste Fundo foi o propósito prioritário, senão o único, da nova Lei do Cinema e do Audiovisual de 2005.
Este processo, e esta politica dos vários governos e ministros da Cultura do bloco central, foi efectuado sem a participação dos realizadores portugueses, que sempre pugnaram por uma clara distinção entre cinema e audiovisual.
O Fundo, no valor aproximado de 80.000.000 €, tem um horizonte de produção para 5 anos mais 2 anos de desinvestimento e funciona como parceiro financeiro dos produtores de cinema e televisão via apoio directo - projecto a projecto - ou indirecto às empresas com uma carteira de projectos.
O investimento, caso a caso, baseia-se num plano de negócios nos financiamentos e parcerias pré-existentes e na rentabilidade ou expectativas de reembolso. Serve como instrumento de auto-financiamento dos canais de televisão e, simultâneamente, como patrocinador de conteúdos e formatos de valor comercial secundarizando a figura do realizador enquanto autor e abolindo o cinema como actividade artística.
Paralelamente o ICA, Instituto do Cinema e ainda do Audiovisual, foi sob a sua actual direcção um dos principais impulsionadores do FICA e, no mesmo período, objecto de uma crescente descapitalização e burocratização, avalizada pela contenção do défice e pela filosofia do “fazer mais com menos“.
Este novo modelo, entre o subsídio a fundo perdido do ICA e o capital público de risco do FICA, acentua definitivamente uma visão dualista do cinema, opondo redutoramente arte e comércio e manietando quaisquer formas de renovação e diversidade.
O que é que o Ministro da Cultura diz disto tudo? Lamentavelmente pouco ou nada de novo. O sr. Ministro, embora demarcando-se dos produtos do FICA - não é da sua alçada nem de bom tom - quer uma indústria, com especial ênfase na feitura dos argumentos e, presume-se, de filmes mais consensuais. Que fazer com o ICA? É esta a questão que o sr. Ministro tarda em responder. Teme-se o pior. O ICA é actualmente uma instituição descaracterizada de competências e funções, com graves consequências para os realizadores e os profissionais de cinema.
Os realizadores portugueses exigem um Instituto do Cinema digno desse nome, independente dos interesses dos produtores e dos resultados de bilheteira. O cinema é uma arte e uma actividade económica e cultural relevante e não se reduz a um instrumento de massificação ou propaganda.
Um país que não respeita os seus artistas na sua pluralidade e nega a sua capacidade de expressão em nome dos valores de mercado é um país sem raízes nem visão para o futuro.

foto TVI24

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

LEMBRANÇAS XVI - Augusto Santos Silva : pontos chaves para uma política adequada

Augustos Santos Silva:
Os pontos chaves para uma política adequada.
Isto é, uma política que não desvalorize o importantíssimo percurso que o cinema português realizou e a sua reconhecida qualidade artística e uma política cujo princípio fundador seja incentivar e apoiar as actividades cinematográficas e audiovisuais pelo seu valor cultural.
A questão que se coloca é, portanto, saber se queremos uma política cultural de apoio ao cinema e audiovisual ou se queremos montar um sistema de canalização dos recursos públicos para um pequeno número de produtores de cinema dito com "atractividade comercial" e para grandes operadoras de televisão.
O Sr. Guilherme d'Oliveira Martins (PS): - Muito bem!

16 de Abril de 2004
IX Legislatura - 2.ª Sessão Legislativa (2004-2005)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

LEMBRANÇAS XIV - CONTEÚDOS S.A.

(...) "Há um momento de viragem, consubstanciado no Relatório da Comissão Inter-ministerial para o Audiovisual de 1997. À defesa do "cinema de autor" sucedeu-se a tónica na "indústria de conteúdos", integrando além do audiovisual o multimédia, de contornos mal definidos, levando, além de uma substituição de pessoas, à transformação do IPACA em ICAM. Contudo, a ideologia dos "conteúdos" levou à controvérsia em torno de uma empresa, a Conteúdos, S.A, empresa privada com capitais inteiramente públicos, 730.000 contos, provocando sucessivas afirmações contraditórias do ministro Carrilho e finalmente, já em 1999, a demissão do presidente do IPACA e da Conteúdos*, José Costa Ramos, que, como presidente da Comissão Interministerial havia sido o principal ideólogo da "indústria de conteúdos".
Augusto M.Seabra - Janus 1999-2000

*o "Managing Director" de Conteudos S.A.
chamava-se Martin Dale

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Corrupção no Cinema em Portugal e em português

A maneira mais fulminante, embora insidiosa de acabar com ele de vez, coisa que até agora não conseguiram, por existir muito forte um desejo de filmar, uma diferente forma de ver o mundo, e de o ouvir, e personalidades que o defendiam, com a própria vida se fosse o caso, como o faria João César Monteiro, o Manoel de Oliveira, e outros, o golpe fulminante está a acontecer perante os nossos olhos. Filmes só para quem eles querem, de preferência sem realizador, em inglês ou num linguajar televisivo-publicitário audiovisual. Produtores que são uma espécie de Zanuks da Picheleira, malandros que aprenderam os truques para vender um “produto” para o mercado à conquista da tal indústria que atrás do nevoeiro é paga pelo contribuinte, esse sim cada vez mais estúpido, graças a Deus e à ausência de crítica. Essa também e isso vem de muito longe, se formatou em puro golpismo ou posições de defesa de gosto, muitas vezes circunstancial. Mas o pior é a própria corrupção dentro das imagens, a pornografia inerente àquele olhar, àquele falar, àquele modo de ser. E ainda o inenarrável João Lopes agora armado em virgem púdica e luminária, grande educador da classe cinematográfica, ele que foi provavelmente o primeiro a trabalhar neste logro, que esmagou o que pôde de tudo o que lhe parecia para além dele próprio, e sobretudo o que fosse frágil e indefeso. O que o Cinema em Portugal sempre foi, frágil, e singular, agora, não tem nem quem o faça nem quem o defenda. Porque agora eles podem.
Lisboa, 26 de Janeiro de 2009.